Opinião

Outra dor insuportável: assistir à privatização dos filhos

Como é que uma mãe e um tribunal podem aceitar que um pai pode ser bom pai para um filho e não ser bom pai para outro?

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Amy DeVoogd/Getty Images

Na sequência do último texto que escrevemos, trazemos à análise mais um testemunho real da dor de um pai que vive, simultaneamente, em residência alternada com um filho João, e sem a possibilidade de viver com uma filha alienada, Ana (nomes fictícios), que não vê há 312 dias, portanto há 9 meses. Como nos relata este pai “O que me deixa muito perplexo é o ter o meu filho e o não ter a minha filha”.

Uma filha alienada por falsas acusações de uma mãe, situação que é alimentada diretamente por esta e, indiretamente, pelo tribunal que não atua para regularizar a situação. Como é que uma mãe e um tribunal podem aceitar que um pai pode ser bom pai para um filho e não ser bom pai para outro? Ou que um filho possa querer estar com o pai e o outro filho não querer? Como se pode aceitar uma situação em que o mesmo pai seja contraditoriamente percecionado de modo diferente em função do filho que se considera? O que é que se passa?

Não haverá, com certeza nenhuma resposta racional que possa sossegar a inquietude e a angústia deste pai: “A mãe diz que eu sou toxicodependente. Eu pergunto: eu sou toxicodependente para a minha filha, e para o meu filho não? A mãe diz que eu sou agressivo. Eu pergunto: eu sou agressivo para a minha filha e para o meu filho não? A mãe diz que eu sou violento. Eu pergunto: eu sou violento para a minha filha e para o meu filho não?” Mais se pergunta, como é que se pode ser um bom pai durante o tempo anterior à separação, quando viviam em família, juntos, e se o deixa de ser após a mesma? “Quando estávamos juntos, a mãe foi estudar à noite para acabar o 12.º ano e aqui o agressivo, o toxicodependente, podia cuidar todas as noites das crianças.”

Ao contrário de outras situações em que a resiliência permite resistir, também a dor insuportável de um pai o pode levar a pensar que para proteger a filha deve desistir, afastar-se, abdicar dela para não a ver sofrer: “Isto está a destruir-me (…) e não percebo como é que esta situação é benéfica para alguém. Começo a pensar que o melhor é abdicar dos meus filhos, para o bem deles; para eles isto não é bom, o pai não está, acabou! (...) e um dia mais tarde vão perceber... A minha vida está um caos”. O ter consigo um filho e não ter outro, pode levar a um sentimento de incapacidade e injustiça: “Sinto tristeza, fúria, impotência. Estão a fazer mal há minha filha e só dizem para eu esperar”.

Em casos como este, quando um pai ou uma mãe tem o domínio sobre os filhos e decide ilegitimamente privar o outro mãe ou pai de viver com um(a) filho(a) e “autorizar” que possa conviver com outros filhos, assume-se como exclusivos proprietários dos filhos, decidindo sozinho as regras da parentalidade. É um jogo com uma relação de ameaça permanente, permitindo-se considerar que pode “desautorizar” a continuar a viver com um dos(as) filhos(as). Uma ameaça cujos efeitos são devastadores, pelo stress e desgaste emocional que pode provocar: “Educo o meu filho com pinças, sinto que a qualquer momento a mãe também o vai alienar e manipular, por isso deixo de ser tão rigoroso com ele para que ele não se sinta contrariado de forma nenhum. Sinto uma frustração enorme de não poder ser pai como sei, é uma profunda tristeza e desilusão (...) Eu tenho uma filha que não vejo, tenho um filho em residência alternada e a mãe está a preparar terreno para eu também deixar de ver o meu filho”.

O pai sofre porque assiste à filha a ser vítima de manipulação: “Mas eu sei que a Ana está ser toldada e isso é que me magoa, está a ser toldada pela mãe que era a pessoa que lhe devia abrir os olhos e ajudar”. E que assiste à atuação de uma mãe impune que afasta este pai do seu papel de cuidador diário, induzindo com o tempo a quebra na esperança de poder ter consigo a filha, de ter os dois filhos juntos.

Este pai, reportou-nos o medo e perder a possibilidade de cuidar na plenitude do seu desenvolvimento, porque o tempo não volta atrás e Ana vai crescendo sem ele: “Mas realmente perdi aqui um bocado o comboio. Do que é que a Ana gosta? Gosta de ir ao cinema, gosta muito de comer, e depois o resto acaba-se aqui por se perder um bocadinho”. Um pai que tem ausente uma filha sente medo do que poderá suceder quando ela voltar: “Estou assustadíssimo quando a Ana voltar e estiver só comigo”.

É fundamental que se iniba o sentimento de impunidade do livre arbítrio da propriedade dos filhos, como acontece com a mãe da Ana e que o tribunal “autorize” a esta filha a possibilidade de ter um pai desejoso de a acompanhar de perto na sua educação, presenciando o seu desenvolvimento, porque este e todos os pais e mães e filhos precisam de tempo e espaço para poder amar e serem amados, e para se envolver, afetivamente, nas rotinas mais comuns da vida: “Eu quero estar com os meus filhos quero participar no crescimento dos meus filhos… eu, na verdade, sinto-me muito perdido muito baralhado, muito sozinho e sem saber o que é que devo fazer ou dizer. Para outros, a minha história é mais um caso para mim é a vida dos meus filhos”.

A nossa mensagem é a de que os pais nunca desistam de lutar pelos filhos vítimas de alienação e que procurem o apoio especializado que possa ajudar a alcançar esse objetivo, para o bem-estar de todos.

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