Cristina Mesquita de Oliveira

Menopausa: “Não somos velhas, feias, irritadas e cheias de calor, somos lindas”

Há um ano, Cristina Mesquita de Oliveira criou um grupo fechado no Facebook, só para mulheres. Hoje são cerca de 22 mil. O próximo passo é concretizar a Vida’s - Associação Portuguesa de Menopausa. Hoje é o Dia Mundial da Menopausa.

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"Este tipo de grupo permite criar comunidade. No fundo, estamos a alargar a nossa rede de afectos"

Há precisamente um ano, Cristina Mesquita de Oliveira criou um grupo privado no Facebook e chamou-lhe Movimento Menopausa Divertida Portugal (MMDP). Ao início eram pouco mais de quatro mil mulheres, hoje já são mais de 22 mil que não entram de qualquer maneira, mas que são escrutinadas previamente. “Somos preparadas para a puberdade, a menstruação, para a gravidez, mas ninguém nos prepara para a menopausa”, declara.

Às vezes, a fundadora da página vai ver quantas mulheres estão ao mesmo tempo no grupo e podem rondar as 13 mil, diz. “Estão lá a fazer o quê? Não há gracinhas, nem vulgaridades, mas uma forma leve de falar da menopausa”, responde, acrescentando que as regras para participar são as da compreensãosolidariedade e partilha.

Face ao sucesso deste movimento, Cristina Mesquita de Oliveira juntou um grupo de companheiras com várias formações (medicina, psicologia, etc.) com o objectivo de criar a Vida'S - Associação Portuguesa de Menopausa. Este domingo assinala-se o Dia Mundial da Menopausa e as mulheres estão todas convidadas para fazer uma caminhada física — em grupos que cumpram os requisitos de segurança e higiene previstos por causa da covid-19 —, a partir das 10h, e que será partilhada virtualmente no grupo da MMDP. “Num ano tenho a certeza que mudei a vida de muitas mulheres”, acredita.

Por que precisa a menopausa de ser divertida?
Quando decidi criar o grupo fui ver o que existia nas outras línguas e não há nenhum nome de grupo que provoque. São todos relacionados com drama, doença, a qualquer coisa que está para acabar e eu não queria perpetuar a onda negativa em que vivem as mulheres em menopausa. Esta é uma fase da vida que pode ser divertida. 

Quem pede para aderir pode ir ao engano, pensar que a página é uma brincadeira?
Sim, pode pensar que é para gozar com o tema. Mas este é abordado de uma forma tão natural, tão séria. Não há discussões, rixas, ódios que vemos nas redes sociais porque é uma linguagem natural, não de piedade, de misericórdia, de drama, mas de ajuda. As pessoas percebem que é útil para toda a gente.

Que tipo de ajuda pedem as mulheres que estão no grupo?
As mulheres pedem para ser entendidas. Não é mais do que isso. Porque têm sinais de que não estavam à espera e depois vão ali [ao grupo] legitimar essa sua inquietude. No fundo procuram ouvir-se umas às outras. Estes grupos são uma forma de autocuidado. É cuidado comunitário porque é um espaço relativamente seguro onde as mulheres partilham, recebem e dão apoio. É uma rede de apoio mútuo.

Porque têm a menopausa em comum?
Quando ouvimos falar as mulheres que passam pelo mesmo que nós ou têm questões parecidas com as nossas, isso dá-nos força para sermos nós mesmas e dá-nos capacidade de resistência, de tranquilidade e até de apaziguamento. Portanto, este tipo de grupo permite criar comunidade. No fundo, estamos a alargar a nossa rede de afectos num tempo em que já se sabe que a solidão e o isolamento são os grandes problemas da nossa saúde emocional. 

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A saúde mental é também um problema para quem está na menopausa?
Sim, nós estamos muitas vezes isoladas na nossa menopausa. Ou porque nos isolamos porque não sentimos coragem de pôr para fora, de forma aberta e natural, aquilo que se passa connosco. Estas redes de apoio são centrais para que exista um cariz identitário. As mulheres procuram as terapêuticas, perguntam se é normal a forma como os médicos respondem as suas questões; como se vive em termos pessoais, laborais, sociais, familiares, sexuais... No fundo, procura-se legitimar a experiência de vida em menopausa.

Também aconselha essas mulheres?
Procuramos ajudar a arrumar a cabeça. A nossa linha de actuação — a minha, a da psicologa e a da médica que trabalha comigo — é essa, as mulheres dão as suas opiniões. Ao verem que há ali alguém, no grupo, que orienta o raciocínio de quem pede ajuda, que as põe a pensar e não lhes oferece soluções imediatas, isso leva a que se crie um ambiente e laços. O que se pretende é dotar as mulheres de informação e de capacidade de discernimento. Naquilo que já existia sobre a menopausa não havia a perspectiva da mulher, mas de quem trata e de quem vende produtos para a menopausa!

E qual é a perspectiva da mulher?
É ser a protagonista da menopausa. Dar-lhe corpo, sentir e perceber o que é que mais se adequa a si. O que nos chega é pensado para muita gente e a menopausa é especial e única em cada uma das mulheres.

Mas os sintomas estão identificados e são mais ou menos os mesmos para a maioria.
O facto de chamarmos sintomas contribui para essa onda negativa que está ligada à menopausa. Há sintomas e há sinais. O problema é que continuamos a remeter para a doença e a menopausa não é uma doença. A menstruação também traz sinais e não é uma doença, tal como a gravidez. Todas as fases que estão ligadas à vida reprodutiva da mulher têm sinais e nenhum deles é uma doença! Contudo, podem derivar numa doença se não forem acompanhados e entendidos por quem a protagoniza.

As mulheres continuam sem saber o que é a menopausa?
É preciso explicar que a menopausa se divide em várias fases. A perimenopausa, a menopausa (que é quando passa um ano que a mulher não tem o período) e a pós-menopausa. É na primeira que a mulher tem mais sinais: dores articulares, fadiga, confusão (o chamado brain fog), ansiedade... Tudo passa, tem a ver com as hormonas aos saltos, tal como na adolescência. Passa quando o nosso corpo encontra um equilíbrio hormonal. Mas não passa se não tivermos sido esclarecidas que é uma questão biológica, natural, que não é da nossa cabeça. 

Quando diz que “não é da nossa cabeça” é porque a sociedade desvaloriza o que se passa com as mulheres. Persiste um preconceito em relação à menopausa?
A sociedade continua a olhar para aquilo que são “coisas de mulheres” como algo menor. Olha para a mulher na menopausa como quem tem neuras, não tem as ideias no sítio porque se emociona demais, por exemplo. Mas nós já não somos essas mulheres porque temos capacidade de continuar a trabalhar, produzir, ser mães, para lá do que conseguíamos no século passado. Nós congelamos óvulos porque decidimos que não é o mundo que vai decretar quando é a altura melhor para termos filhos!

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O que mudou da geração das nossas mães para a nossa, nessa vivência da menopausa?
Nós achamos que é importante fazermos exercício físico porque melhora o nosso estado de saúde em termos gerais. Sentimos que [ao praticá-lo] estamos a fazer bem a nós próprias. Há uma primazia no tratamento da menopausa e isso contribui para perpetuar a onda negativa — são os hospitais, as clínicas, a indústria farmacêutica, a da cosmética, as medicinas alternativas —, estas são as entidades que tomam conta da menopausa. Não há uma que seja constituída por mulheres e que fale da menopausa na primeira pessoa.

A associação vai colmatar essa falha?
Sim. Com a pandemia, não podemos encontrarmo-nos como queríamos, mas queremos criar linhas de acção. Queremos dar a entender que no nosso país há uma voz unida pelas protagonistas da menopausa, que é esta associação que quer que a mulher seja ouvida de mulher para mulher, para arrumar a cabeça e saber que o que vivemos é natural e não é motivo para a vida parar. Não somos velhas, feias, irritadas e cheias de calor, somos lindas, plenas de sonhos por concretizar e vontade de futuro!

Mas nem todas as mulheres olham para a menopausa dessa maneira positiva.
Enquanto que para algumas não constitui um problema; para outras até por causa da linguagem com que lhes falam, encaram como um problema grave. Por isso urge a necessidade de falarmos em termos perceptíveis para todas as mulheres, independentemente da sua formação académica. 

Então, o que é a menopausa?
É um mal menor, é algo que dá muito dinheiro a ganhar a muita gente. Em Novembro de 2019, segundo dados divulgados pelo Jornal Económico, gastam-se dois milhões e meio de euros em produtos para a menopausa. Ou seja, é um alvo comercial de grande interesse. O apelo é: “Tens de ser sempre jovem, linda e magra.”

Porque o nosso corpo muda e temos dificuldade em enfrentar essa mudança?
Com certeza e custa! Mas fazer o quê? Encaixar e acreditar que continuamos lindas. Vamos evitar os clichés que nos diminuem — “Estás tão bem conservada, nem pareces a idade que tens...”, mas eu não sou uma sardinha numa lata de conservas! 

Quando nos dizem isso, o objectivo não é ofender.
Sim, não dizem para nos magoar, mas se pensarmos bem é o perpetuar de ideias feitas. Há um trabalho de reflexão a fazer porque a injustiça é muito grande, uma vez que remete para os estereótipos de que só a juventude é beleza.

E isso não acontece com os homens?
Os homens têm uma sustentação social que não os vitimiza, nem dramatiza o envelhecimento. 

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Voltando ao comércio que gira em torno da menopausa, as mulheres não precisam das terapias hormonais, dos cremes, sejam eles de rosto ou vaginais? Não é uma necessidade efectiva?
Sim, é uma necessidade que tem de ser clarificada. Quer os medicamentos, as mezinhas, os conselhos das amigas, tudo tem de ser informado para que cada mulher seja capaz de usar as ferramentas da forma que mais se adequa. Somos preparadas para a puberdade, a menstruação, para a gravidez, mas ninguém nos prepara para a menopausa. Por isso, esta deveria ser incluída no currículo escolar, tal como já foram as outras fases da vida da mulher, para não nos apanhar assustadas.

Um ano depois de ter criado a página, as questões são as mesmas?
Continuo a ler mulheres que dizem: “Como é que eu nunca tinha pensado nisto? O que eu poupava em rugas se tivesse percebido que isto não é só comigo?”

O grupo ajuda a desdramatizar a situação mas, ainda assim, haverá mulheres que continuam a ter receios e ansiedades?
Sim, por isso, enquanto associação queremos criar parcerias com outras entidades que lidam com a menopausa. Se formos ao Google e inserirmos a palavra menopausa, surgem páginas de hospitais, de seguradoras, de fraldas para a incontinência urinárias, tudo coisas que remetem para doença. 

Muitas vezes, os sinais da menopausa podem prejudicar as mulheres no seu trabalho?
Muito. Enquanto temas ligados à estética e beleza nos melindram mas são coisas só nossas, quando falamos em termos laborais damos conta que as mulheres têm medo porque os empregos não abundam e a covid-19 não veio ajudar. A verdade é que temos de abrandar quando a menopausa explode na nossa cabeça, mas [sentimos que] não podemos dizer isso ao chefe ou aos nossos colegas. Falar sobre isso é dar parte de fraca. Contudo, as entidades têm de perceber que a mulher em menopausa tem um terço da sua vida para trabalhar, mas, em condição de menopausa — com necessidades como quando está grávida. É a condição de ser mulher e o respeito tem de ser igual. 

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