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Paulo Pimenta
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Penha Garcia e as “cobras pintadas” com 480 milhões de anos

Em Penha Garcia, as rochas e o castelo quase se confundem lá no alto, encrespadas sobre a aldeia em anfiteatro. Desça-se depois à praia fluvial do Pego para encontrar o passado fossilizado que deu origem ao Geopark Naturtejo.

Rochas e castelo quase se confundem no alto de Penha Garcia. Pedra sobre pedra - erguendo-se sobre pedra que guarda rastos da vida há 480 milhões de anos, quando esta terra era água. É das traseiras da igreja matriz que primeiro avistamos esse desfiladeiro onde o antigo fundo do mar se conserva petrificado, agora sob a tutela da barragem do rio Pônsul. Vemos telhados, pontes de madeira, edifícios colados à rocha e lemos Geopark Naturtejo (desenhado a pedra, pois claro) - e já lá desceremos. Falta pouco para atingirmos o topo: escadas arrancadas à pedra e estamos nas ruínas do castelo (que foi castro, ocupado por romanos e fortaleza templária).

A aldeia dispõe-se em anfiteatro de olhos postos na planície, que se empina em Monsanto. Desenrede-se o novelo de ruas estreitas, onde os carros nem sempre cabem, passando o forno comunitário que continua a abrir aos sábados para cozer pão, chegando até ao memorial da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, tanque de combate em “pedestal”. Pelo meio, a Casa25, que com a sua caixilharia amarela (e as bicicletas à porta) não passa despercebida.

Seguimos para o passado fossilizado entre os fraguedos de Penha Garcia que deu origem ao Geopark Naturtejo, como conta Domingos Costa Rodrigues, o senhor Domingos, como é conhecido, uma espécie de guardião deste Parque Icnológico de Penha Garcia. Anda atarefado a compor muros e por isso encontramo-lo perto da praia fluvial do Pego, um pequeno oásis neste universo rochoso, onde não falta uma cascata. Trabalha aqui há 30 anos (vai nos 64) e tem um sentimento quase de posse. Não é geólogo, avisa logo, mas acompanhou muitos - e na sua meninice, antes de haver parque, já andava por aqui: nessa altura os icnofósseis eram “cobras pintadas”. “Era assim que lhes chamávamos.”

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“Os melhores icnofósseis estão por aqui”, diz-nos, enquanto nos conduz agilmente entre pedras, árvores e um ribeiro, onde costumam aparecer plantas carnívoras. “Isto são os icnofósseis”, aponta para excrescências na rocha, quase como se tivessem sido esculpidas, “são os rastos que as trilobites faziam quando procuravam comida”. As trilobites eram “uma espécie de camarão”, desfia, “mas aqui não se encontram os fósseis destas porque isto é quartzito. Elas fixaram-se no xisto.”

Mostra-nos rastos mais finos, quase como um emaranhado leve e, quando já começamos a subir os penedos, indica, no alto, um dos icnofósseis mais icónicos, “como uma mão”, descreve. Vemos uma seta branca desenhada na rocha, e mais à frente, também a tinta, o alerta: “É proibido danificar os fósseis” - “Foi uma senhora daqui que o fez, já sabia antes que isto tinha de ser protegido.” Ficaram essas marcas como se fizessem parte da arqueologia do sítio a que o movimento das placas tectónicas deu forma de ondas rochosas.

Deixamos os icnofósseis de lado, seguindo o trilho na rocha, por onde antes “passavam os burros carregados de trigo e centeio” para fazer a farinha. Há moinhos do outro lado. “O último moleiro aqui foi o Ti Serrano, aí em 1970”, conta. Havia 24 moinhos no rio, a câmara comprou quatro. Um deles mantém-se como recriação, com a mó a funcionar e tudo. Outro é a Casa dos Fósseis, um pequeno centro de interpretação, onde vemos uma das famosas trilobites, num pedaço de xisto com nódulos. O senhor Domingos pega-lhe com à-vontade e dá dicas para a fotografar - está habituado: “Já passou por aqui toda a gente”, conta, orgulhoso.

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