Parece ser bom viver em Kolding

A leitora Manuela Santos partilha a sua experiência na pequena cidade da Dinamarca.

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David Mark From Pixabay

A experiência de quinze dias numa pequena cidade dinamarquesa como Kolding foi bastante positiva. Cidade calma mas não adormecida. A população vive o seu dia-a-dia, desfrutando dos pequenos prazeres sem parecer ter o espectro da covid-19. Só usam máscara nos transportes e restaurantes. Ninguém se afasta desconfiado, nem sequer de mim, que sou estrangeira.

Com naturalidade, os dinamarqueses, desde sempre, mantêm distanciamento social em qualquer espaço. E com a mesma naturalidade os espaços públicos têm poucas pessoas, incluindo os hipermercados. Talvez porque só deste tipo de estabelecimentos estejam representadas oito cadeias, não contando com outras superfícies mais especializadas, em jardinagem, electrodomésticos, etc. E, por fim, um enorme centro comercial. Sendo a população de cerca de 80.000 habitantes com o hábito de comprar pouco de cada vez, não existem aqueles carros de compras completamente apinhados. Os dedos das mãos chegavam para contar o número de pessoas em cada vez que fui ao hipermercado. Em todos os que entrei se passou o mesmo.

Kolding oferece à população tudo o que precisa para viver com conforto. Tratar de qualquer assunto, seja com o Estado ou com particulares, é feito online e com sites amigáveis, eficientes. Nunca faltam ao cumprimento de uma data. Parecem, de facto, uma população com satisfação social elevada. Quando os observo, na rua ou noutro lugar, reconheço expressões leves e quase sempre sorridentes, embora trabalhem oito horas por dia, que gerem com a vida doméstica e os seus pequenos prazeres.

Na realidade, talvez esteja na origem desta leveza o pesado mas transparente sistema tributário que é o grande alicerce do modelo social. Skat em dinamarquês significa “querido” mas é termo homónimo de “imposto”. No fundo, o imposto é querido para os  dinamarqueses, que se acham contribuintes satisfeitos, nunca entram em conflito com o sistema tributário nem este com os contribuintes. Existe mútua confiança. Sabem que têm saúde gratuita de acesso igual para todos, tal como a educação até ao fim da universidade. Sabem onde são aplicados os seus impostos. Será esta uma das razões para a Dinamarca ser um país feliz? Avaliação feita com base no PIB, nível de corrupção do Estado e do sector privado, infra-estruturas, satisfação social, nível de expectativas dos cidadãos.

A cidade de Kolding cresceu de forma quase circular em torno do lago e do castelo medieval que serviu de residência de Verão do rei Valdemar Atterdag, no século XIV. Actualmente é um museu. Nesta cidade o urbanismo está em sintonia com o meio rural envolvente, onde predominam as enormes quintas muito bem cuidadas. Moradias de grandeza variada entre mais modestas ou mais sofisticadas são o tipo de residência mais comum, uma vez que apenas o centro tem prédios e, mesmo assim, não ultrapassando,  geralmente, os três andares. A cidade estende-se por largos quilómetros, requerendo um serviço de autocarros mas o carro é o meio de transporte mais utilizado. Vida calma, tranquila, são aspectos contagiantes. Os vizinhos do lado apanham sol, estão bronzeados e lêem os seus livros no seu jardim enquanto dão pela minha presença no jardim da casa onde estou instalada.

- Hei!, dizem eles.

- Hei!, respondo eu.

Ficámo-nos pelos sorrisos mas poderia ter sido um início de conversa. Um outro vizinho veio oferecer a sua serra eléctrica para apararmos a sebe. As relações de vizinhança parecem ser afáveis, embora com discrição. A jardinagem faz parte da vida dos habitantes. Sempre se vê ou ouve alguém aparando a relva ou as flores e todas as moradias, em bom estado de conservação, se erguem no meio de jardins tão bem cuidados que parecem pintados com pincel de artistas. Os dinamarqueses respeitam e valorizam o trabalho manual. Deitam mãos à obra e em muitos casos são eles próprios que consertam as casas ou os abrigos de madeira para o automóvel. Por falar em automóvel, ter um clássico é um hobby de peso na Dinamarca e, em Kolding, o mesmo acontece. Claro que são os proprietários que fazem a manutenção, uma vez que a mão-de-obra é cara, motivada pelos razoáveis salários. Durante os fins- de-semana ensolarados é ver, com prazer, bastantes marcas antigas que desfilam, reluzentes, pelas ruas num passeio higiénico para carro e condutor.

Um outro aspecto que me impressionou bastante nesta cidade foi o da recolha dos resíduos domésticos. Funcionários da autarquia recolhem apenas os desperdícios alimentares que são guardados em sacos verdes distribuídos gratuitamente. Pequenos resíduos diversos são guardados à parte. Devidamente acondicionados e separados, são colocados nos caixotes do lixo junto a cada residência. Quanto a todo o outro lixo, é levado pelos habitantes a dois enormes espaços adequados e situados em dois pontos diferentes da cidade, onde é classificado de um modo exaustivamente diferenciado. Existem contentores específicos para cada tipo de objecto: para roupa, só para sapatos, para plásticos, para pilhas, só para fios eléctricos, para papel, só para caixas de papelão, para ferro, electrodomésticos, latas de tinta, entulho de obras domésticas, madeiras, desperdícios dos jardins, etc. Não importa a quantidade, todo o lixo é aqui depositado e muitos dos habitantes têm um pequeno atrelado para esse fim. Deste modo a cidade é muito limpa, não se vê desperdício de nada em lugar nenhum. Tudo está sempre como novo, embora com as marcas do tempo. Assim dá gosto ver passar os bebés, por vezes uns cinco ou seis, transportados em caixas na parte da frente da bicicleta. Os mais crescidos correm, logo manhã cedo, pelos passeios impecáveis, limpos. 

A ideia que me fica é a de uma cidade rejuvenescida em cada dia, bem organizada, limpa, onde nada falta em relação à modernidade, que respeita o seu património e as suas tradições. Parece ser bom viver em Kolding.

Manuela Santos

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