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O desespero do berço vazio

- Vai correr tudo bem, mas o seu filho teve uma paragem cardiorrespiratória e foi para os cuidados intensivos. Se quiseres, chora, mas lembra-te que é só o primeiro dia das vossas vidas.

Sabia que aquele dia iria mudar a minha vida. Sabia que íamos ser uma família. Sabia que a minha definição de amor iria mudar para sempre. Sim, eu sabia, já o tinham dito, já o tinha sentido.

Resolveste vir ao mundo bem antes do esperado e mesmo assim estava feliz. O médico disse que estavas bem. Por cima da minha barriga, não choraste, nem fizeste nada do expectável, mas eu ainda não sabia, não o poderia saber.

Enquanto fui para o recobro, tu saíste do meu lado. O teu pai ainda te viu, disseram-lhe para voltar mais tarde. Eu senti-me nas nuvens, um sentimento indescritível — ainda agora saías de perto de mim e a saudade já era muita. Eras tão meu. Tão nosso.

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De vez em quando, em sonhos, ainda sou assombrada pelas palavras daquela enfermeira que chegou à beira da minha cama, me segurou na mão e disse, num tom suave:

- Vai correr tudo bem, mas o seu filho teve uma paragem cardiorrespiratória e foi para os cuidados intensivos. Se quiseres, chora, mas lembra-te que é só o primeiro dia das vossas vidas.

Trazia uma foto, uma polaroid, onde tu, meu amor crescente, estavas ligado a todos os tipos de máquinas. Não percebi a polaroid, na altura. Só muito mais tarde é que percebi o porquê e a importância da mesma.

Não quis saber da recuperação da epidural, não quis ouvir os conselhos que apelavam à calma, fui mexendo as pernas o mais rápido que conseguia. Tinha que ir ao teu encontro

Já estava no quarto quando o teu pai voltou. Ele não sabia. Foi preciso pouco para, diante daquela foto, ele ir a correr ver-te. Não me deixavam ir… Maldita epidural. Malditos fossem todos, eu só te queria ver.

Fiquei sozinha num quarto onde todas as mães tinham o berço ao lado com os seus filhos  o meu continuava vazio. Vazio de um filho, vazio de ti. Senti uma força angustiante a cortar-me toda e qualquer lógica. Chamei um enfermeiro e, num súbito arrebatamento de injustiça, loucura ou de um amor tão avassalador, disse-lhe:

- Ou me leva a ver o meu filho ou saio daqui à procura em qualquer lado desta maternidade.

E assim foi. Perto da meia-noite desse próprio dia vi-te. Não te abracei, nem te toquei, não senti o teu respirar, nem consegui dar um sopro de mim, na tua vida que parecia tão frágil.

Chorei. Chorei na impotência e frustração daquele nosso amor. Deixar-te para trás na maternidade foi um desespero. Não eram lágrimas, eram gritos e gemidos de uma dor atroz que não tem explicação, só sabe quem a sente.

Foram quase 20 dias para poder sair contigo, sair com o meu filho da maternidade. Foram anos para superar e acalmar a minha mente. Felizmente, tive uma equipa formidável que cuidou de ti. Tive uma família e amigos que cuidaram de mim, de nós. Quando sentia aquele turbilhão de emoções, em cada consulta, em cada exame, até te darem alta definitiva (que demorou quase 24 meses), agarrava-me ao teu sorriso sempre desprendido, à tua energia, às novas evoluções e ao teu olhar no meu.

Aquele teu olhar deu-me força desde o primeiro dia para nunca desistir. Só espero que o meu te faça o mesmo. Ainda hoje choro a olhar a tua primeira imagem, já sem revolta, mas numa mistura de tristeza e orgulho ao ver onde chegaste. Chegamos!

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