Covid-19 pode levar a que mais 130 milhões de pessoas passem fome

Pandemia aprofundou crise socioeconómica e levou a uma interrupção nas cadeias de distribuição de alimentos, o que deixa milhões de pessoas em risco de passar fome. África e Ásia, e particularmente a Índia, geram grande preocupação.

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Helicóptero da FAo no Sudão do Sul, onde metade da população está em risco SIEGFRIED MODOLA/Reuters

No ano em que comemora 75 anos, assinalado nesta sexta-feira com o Dia Mundial da Alimentação, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que mais de 130 milhões de pessoas estão em risco de passar fome. Perante este cenário, agravado pela pandemia de covid-19, o director da agência, Qu Dongyu, fala num desafio “a uma escala sem precedentes desde o final da II Guera Mundial” que “ameaça as vidas de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo”.

De acordo com as previsões das Nações Unidas, a covid-19 pode empurrar entre 83 a 132 milhões de pessoas para situações de fome. Actualmente, mais de 690 milhões de pessoas estão nesta situação, 381 milhões delas em África e 250 milhões em África. 

O aumento do preço dos alimentos e as perdas de empregado impulsionadas pela pandemia estão a aumentar a insegurança alimentar e a desnutrição em vários pontos do mundo, particularmente em África e na Ásia, os continentes mais afectados, onde se teme que milhões de pessoas possam ficar sem dinheiro para comprar alimentos.

Estão preocupações são identificadas num relatório da Comité Internacional da Cruz Vermelha (CIVC), baseado em 2400 entrevistas em dez países africanos, que concluiu que 94% das pessoas deram conta do aumento dos preços dos alimentos e de outros bens essenciais, uma tendência acompanhada pela perda de rendimentos, segundo 82% dos inquiridos.

“O risco é que à medida que os preços dos alimentos aumentam e os rendimentos das pessoas diminuem, possamos ver um aumento da desnutrição, porque as famílias não podem comprar comida suficiente ou os alimentos que podem comprar são pouco ricos em nutrientes”, afirma Pablo Lozano, analista do CICV na área económica e segurança para África.

No Nordeste da Nigéria, região atingida por um conflito entre islamistas e o Governo, o CICV relatou um aumento de 20% nos casos de malnutrição entre crianças, enquanto o número de malnutrição severa cresceu 10% em comparação com o ano passado.

Um cenário semelhante foi observado na Somália, onde mais de 17 mil crianças com menos de cinco anos e mulheres grávidas ou que estão a amamentar tiveram de ser assistidas pela organização nos primeiros meses deste ano – mais cinco mil do que o valor total em 2019.

No Burkina Faso, verificou-se um aumento de 200% no número de pessoas que enfrentam a insegurança alimentar, enquanto no Sudão do Sul metade da população está em risco de fome.

A situação na Índia, que contabiliza mais de sete milhões de pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 e mais de 112 mil mortes devido à covid-19, é também bastante preocupante, com a pandemia a aumentar a insegurança alimentar existente no país e a levar a uma interrupção nas cadeias de distribuição de alimentos.

Com a imposição de uma restrita quarentena em Março, que tem sido levantada gradualmente, milhões de trabalhadores migrantes foram forçados a abandonarem as grandes metrópoles e a regressarem às suas localidades de origem, o que fez o desemprego disparar.

Além disso, de um acordo com um relatório publicado pela Oxfam em Julho, as medidas impostas tiveram impacto na época de colheitas e impediu que os comerciantes de chegarem às áreas rurais, o que afectou mais de 100 milhões de pessoas. No mesmo relatório, a Oxfam alerta que o risco de fome extrema se agravou com a pandemia e que a fome poderá matar muito mais do que a covid-19.

Em Setembro,Valerie Guarnieri, vice-directora do Programa Alimentar Mundial, galardoado com o Prémio Nobel da Paz este ano, sublinhou que “antes da covid-19, já estávamos a assistir a um aumento da fome” e que, com a pandemia, “a fome está a ser levado para outros níveis, com os preços dos alimentos a subirem ao mesmo tempo que as pessoas sentem o impacto da crise socioeconómica”.