O futuro em debate: no meio de tanto ruído online, este texto é importante

A luta pela literacia mediática é uma luta pela democracia, pelo direito à informação e pelo direito de acesso, em segurança, aos meios digitais.

Foto
unsplash

Se há coisa que se tornou óbvia com a pandemia de covid-19, entre muitas outras, foi o poder que as histórias, o conteúdo e a informação de qualidade têm para uma sociedade. As histórias moldam a cultura, moldam a perspectiva que temos sobre determinado assunto e, por consequência, o nosso comportamento.

É muito fácil indicar tanto efeitos positivos como negativos desta digitalização e diversidade na forma como acedemos à informação e aos conteúdos que consumimos. Se, por um lado, as fake news que se partilham em grupos de Whatsapp com falsas curas para o novo coronavírus podem colocar vidas em risco, por outro, os directos do Bruno Nogueira e Nuno Markl no Instagram (entre tantos outros exemplos…) fizeram companhia a milhares de portugueses e angariaram doações importantes para organizações que, de facto, trabalham na solução.

Estes são, obviamente, pequenos exemplos de como os meios digitais e as redes sociais podem influenciar as nossas vidas. Através deles, elegemos presidentes, juntamo-nos a campanhas e movimentos, lutamos por causas e direitos… e tudo isto são, hoje, comportamentos informados por imagens, sons e palavras que nos chegam através de ecrãs.

Este “novo mundo” é ao mesmo tempo uma utopia e uma distopia, e é por isso que é tão difícil de o conseguirmos debater.

No entanto, após estes anos de habituação, existem algumas aprendizagens a retirar desta nossa experiência. A primeira é que é absolutamente essencial adquirir competências digitais e mediáticas para viver num tempo em que grande parte das nossas vidas, das nossas relações, das nossas aprendizagens, passam pelas redes sociais e pela internet. Estar informado nunca foi tão fácil, e nunca foi tão difícil.

A literacia mediática, isto é, o ensino de ferramentas que permitem ao leitor lidar com a “sobreinformação”, distinguir fontes credíveis de fontes não credíveis, que ensinam a enquadrar múltiplas versões dos mesmos factos e a procurar as fontes primárias, tem de ocupar um espaço central nos programas de educação, do ensino básico ao ensino secundário, ao lado das ciências exatas, das línguas e das ciências sociais. Estas são as mais importantes ferramentas-base do século XXI e cabe à escola dotar as novas gerações da capacidade de as utilizar.

Aprendemos também que precisamos de desenvolver um quadro regulatório que assegure a liberdade e subsistência do setor da informação, comunicação e media.

Muitas vezes, esta questão é colocada de forma extremada: “Carolina, és a favor da regulação pelo Estado ou da liberdade de criação de conteúdos?” É uma falsa questão. Defender que o Estado deve ter um papel regulador de determinados fenómenos mediáticos não implica a defesa de qualquer tipo de intervenção em conteúdos pelo Estado.

A verdade é que as fontes de informação feitas por jornalistas encartados e que respondem perante um código deontológico e um quadro legal concorrem hoje pela atenção de leitores com qualquer pessoa, dos bloggers aos youtubers. Os novos projectos de media independente, por outro lado, sofrem com a falta de vias de financiamento nacional e de alternativas viáveis às receitas publicitárias.

É inegável que o Estado tem a responsabilidade constitucional de concretizar o acesso a informação de qualidade. Esse acesso passa, inevitavelmente, também por meios privados de comunicação, que devem ser ajudados, na medida em que são privados com função de interesse público. Não podemos ignorar que, se a qualidade da informação, e a nossa capacidade para a apreender, continuarem a decrescer, é a democracia e a nossa segurança que estão em causa. Esse é um problema do qual nem nós, nem o Estado, nos podemos demitir.

Os tempos que vivemos mostram-nos diariamente a responsabilidade que tem o nosso “eu” digital (tanto enquanto consumidores como criadores de conteúdo). Precisamos de nos equipar, e de equipar os outros, com ferramentas para navegar pelos milhões de conteúdos informativos que nos vão passar à frente dos olhos durante as nossas vidas. E precisamos também de garantir que quem tem o trabalho de nos informar tem condições para o fazer.

As redes sociais e os media digitais podem tornar-se muito mais do que vídeos virais, clickbait e indignações fugazes. Podem, de facto, ser a nossa janela para histórias globais, para dar voz a mais diversidade de pontos de vista, para gerar mudança.