1. A era da incerteza

Hoje, o medo generaliza-se e a esperança é mais limitada. A visibilidade prospetiva é cada vez mais reduzida e não é certa a convicção de que “melhores dias virão”. Cada vez mais, a vida política polariza-se entre a moderação racionalista e o radicalismo emocional perante um mundo de incertezas e inseguranças.

O título deste primeiro artigo não é original. Recuperei-o do livro com o mesmo título de John Keneth Galbraith, publicado em 1977 e que serviu de guião para uma notável série de documentários da BBC sobre as transformações operadas na economia na primeira metade dos anos 70.

Galbraith sustentava que as certezas do pensamento económico, dominantes desde finais do século XIX, teriam então de ser confrontadas com a incerteza provocada pelas mudanças operadas pela crise de 1973-74, pelo primeiro choque petrolífero e pelo rescaldo de uma derrota humilhante dos Estados Unidos no Vietname.

Quarenta e três anos após a publicação, podemos perceber que Galbraith foi pioneiro e, se tivesse sobrevivido mais 14 anos à sua morte (2006), haveria de reconhecer que a sua previsão terá ficado muito aquém da realidade dos nossos dias.

Durante mais de um quarto de século, o mundo ocidental adotou, desenvolveu e aplicou com enorme sucesso os princípios e modelos da teoria keynesiana, chegando ao ponto de se convencer que os ciclos económicos e os efeitos devastadores das crises e recessões (1929-1933 tinha deixado marcas profundas) seriam mais facilmente controláveis. O que Galbraith veio anunciar é que “pouco desta certeza agora sobrevive”, incentivando o desenvolvimento das teorias pós-keynesianas neste quase meio século da história do pensamento económico.

Dois anos após a publicação de A Era da Incerteza, um dos mais notáveis historiadores franceses, Fernand Braudel, publicou o terceiro volume da monumental obra Civilisation matérielle, Économie et Capitalisme, XVe-XVIIIe Siècle. Logo no primeiro capítulo, Braudel retoma o tema dos ciclos económicos e o seu conceito de longa duração e de trend secular. Sugere mesmo que a crise de 1973-74 marcava a inversão do ciclo secular, passando de uma fase ascendente que se iniciara em finais do século XIX para um trend descendente de longa duração, em tudo semelhante ao que se identificara de 1815 a 1896.

Ora, para Braudel estes trends seculares descendentes são marcados pelo que designa por “aceleração da história”, entendida como precipitação dos processos de mudança económica e social, pela maior propensão à inovação tecnológica, pela desaceleração do crescimento económico e pela incerteza: “Todos os fundamentos da vida económica, todas as lições da experiência, presentes e passadas, são postas em causa.”

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EPA/IAN LANGSDON

A era das revoluções industriais, do crescimento do comércio mundial, dos movimentos sociais e dos nacionalismos que marcaram o século XIX encontram um paralelo, com a devida distância do contexto e a salvaguarda dos anacronismos, no quase meio século que vivemos desde 1973-74. Tal como então, a força dos processos de desestruturação social tende a sobrepor-se aos esforços de regulação e de (re)estruturação. O vórtice da mudança tende a abalar os pilares sociais e culturais das sociedades existentes. O capitalismo industrial triunfou sobre os escombros das sociedades de Antigo Regime, o livre câmbio sobre o sistema mercantil e o protecionismo, o liberalismo e os sistemas representativos sobre os regimes autoritários e absolutos.

As flutuações, as crises e recessões económicas que ambicionámos dominar emergem de novo, agora com mais força e com intervalos mais estreitos, mas com o mesmo efeito devastador sobre os mais vulneráveis, quer sejam países, regiões, instituições ou grupos sociais.

O desafio que se coloca nos nossos dias é o de saber como lidar com a incerteza, com a contingência, com os problemas para os quais não há soluções pré-concebidas, mas que têm o poder de abanar os fundamentos do adquirido, a segurança do estabelecido ou a confiança no amanhã, porque tudo parece efémero.

Apesar dos enormes avanços verificados na ciência, a humanidade continua exposta a novas pandemias, à maior incidência de doenças sem cura eficaz, aos fenómenos extremos e imprevisíveis provocados pelas alterações climáticas, às ameaças contingentes das ações terroristas. A teoria económica esforça-se por modelizar a incerteza, mas mais não faz que a admitir como um outlier, cujas externalidades são inestimáveis.

A possibilidade de se registar uma crise económica mundial era admitida na passagem da segunda para a terceira década do século. Os sinais eram ineludíveis, especialmente a desaceleração do crescimento económico sensível desde 2018. A crise pandémica teve o efeito de precipitar e ampliar a crise económica que se desenhava, mas, mais importante, alterou a sua natureza conferindo-lhe maior complexidade, incerteza e imprevisibilidade. Na história económica contemporânea não é muito comum a sucessão de duas recessões em pouco mais de dez anos.

Este é um enorme desafio que se coloca à governação e aos sistemas políticos. Para além dos efeitos económicos sobre o emprego e o rendimento de largos estratos da população, a atual crise tende a gerar redução da confiança, o aumento do stress social e uma inevitável radicalização da vida política.

Hoje, o medo generaliza-se e a esperança é mais limitada. A visibilidade prospetiva é cada vez mais reduzida e não é certa a convicção de que “melhores dias virão”. Daí que os extremismos tendam a explorar o medo e a insegurança, a reação emocional, o ressentimento e a expressão recalcada de frustrações coletivas.

Cada vez mais, a vida política polariza-se entre a moderação racionalista e o radicalismo emocional perante um mundo de incertezas e inseguranças.

Primeiro de uma série de dez textos de David Justino que publicaremos semanalmente, sempre às quintas-feiras, sobre os desafios que enfrentamos em várias áreas, em Portugal e no Mundo. Próximo artigo: “E se tudo muda...”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico​