Os rios de Portugal já não são rios

Um pouco por toda a Europa, as barragens de cimento, aço e betão feitas pelo ser humano estão a dar lugar a barragens de pedras, ramos e lodo feitas pelos castores. Dificilmente vamos recuperar os rios antigos, mas podemos sonhar com rios melhores no futuro.

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Nelson Garrido

Quando eu era pequenino, contaram-me a história dos três rios, os maiores de Portugal. Os três rios, Guadiana, Tejo e Douro, combinaram correr até ao mar, cada um por seu caminho, na primeira luz da manhã. O Guadiana acordou primeiro, devagar por entre as planícies alentejanas, entre azinheiras e sobreiros fez o seu caminho. O Tejo, ao ver que o Guadiana já tinha acordado, começou apressado em terras de Espanha e depois correu lentamente por terras lusitanas até Lisboa. O Douro, ao ver que os outros dois já tinham partido, correu rápido por meio de serras montanhas e desfiladeiros até chegar ao mar. Hoje esses três rios, os maiores de Portugal, estão irreconhecíveis.

O Guadiana tem o maior lago artificial da Europa, a obra destruiu milhares de hectares de montado e submergiu aldeias. Tudo para promover uma agricultura industrial com foco na exportação e dependente de mão-de-obra estrangeira mal remunerada e com poucos direitos laborais. O Tejo está quase seco, os pauis e margens convertidas para agricultura e as águas estão poluídas pela indústria da pasta de papel. O Douro, descrito como o Rio Indomável, hoje está domado. Só do lado português, ao longo do curso principal do Porto a Miranda do Douro, tem dez grandes barragens e cerca de 1200 pequenos açudes e barreiras nos seus afluentes. As barragens são usadas para produzir electricidade e as águas paradas são usadas para cruzeiros e transporte de mercadorias, apesar de ter uma linha de comboio paralela ao seu curso que podia funcionar com os mesmos fins com um impacto ambiental mais reduzido.

O rio é, por natureza, selvagem, livre, cheio de vida. Os rios em Portugal estão domados e presos por barragens, mortos por poluição e espécies exóticas.

Um olhar na história mostra que nem sempre foi assim. No Guadiana, o solho, também conhecido pelo nome de esturjão, era tão abundante que era representado nas moedas de Mértola. Na Idade Média, o Tejo era descrito como “dois terços de água e um terço de peixe”. No Douro, a abundância de lampreias, sáveis, trutas e salmões era famosa entre os romanos. O castor, engenheiro de rios e ribeiras, existiu no nosso país até ao século XV. Hoje estes relatos não passam de histórias, a abundância deu lugar a escassez e em alguns casos a extinção. 

Mas é possível usar o passado para imaginar algo melhor. Primeiro, é importante conhecer o património natural presente e passado dos nossos rios e ribeiras. Depois, há várias medidas que podem ser feitas, por exemplo, acabar com a poluição agrícola, industrial e urbana, não usar as linhas de água como um recurso inesgotável para a agricultura intensiva ou controlar espécies invasoras. Contudo há duas dinâmicas que são fulcrais: a remoção de barragens e o regresso do castor. Um pouco por toda a Europa, as barragens de cimento, aço e betão feitas pelo ser humano estão a dar lugar a barragens de pedras, ramos e lodo feitas pelos castores. A remoção de barreiras obsoletas em rios e ribeiras e o regresso do castor à sua distribuição histórica devolvem vida e dinâmicas perdidas aos rios, e a abundância de vida, pouco a pouco, volta.

Dificilmente vamos recuperar os rios antigos, mas podemos sonhar com rios melhores no futuro.