Rússia nega que tenha chegado a acordo com os EUA para limitar o seu arsenal nuclear

New START, em vigor há dez anos, termina em Fevereiro do próximo ano. Estados Unidos dizem que têm “acordo de príncipio” com a Rússia, mas Moscovo diz que é “ilusão” e considera “inaceitável” a possibilidade de congelar o seu arsenal nuclear sem receber nada em troca.

Foto
Protestos contra o fim do INF em frente à embaixada americana em Berlim, em 2019 OMER MESSINGER/EPA

As conversações entre Estados Unidos e Rússia para prolongar o acordo sobre o controlo de armas nucleares entre os dois países, que expira no próximo mês de Fevereiro, estão num impasse, depois de Washington ter afirmado que chegou a uma posição comum com Moscovo, enquanto o Governo russo fala em “ilusão” e afirma que não vê perspectivas de uma posição comum nos próximos tempos.

Em causa está o tratado New START, assinado em 2010 por Barack Obama e Dmitri Medvedev, que impõe limites ao arsenal nuclear dos Estados Unidos e da Rússia.

O acordo entre Washington e Moscovo termina em Fevereiro de 2021, cerca de um mês depois da tomada de posse do novo Presidente norte-americano, e, nos últimos anos, os dois países têm trocado ameaças sobre a sua possível retirada do tratado.

O New START mantém alguma contenção na corrida às armas nucleares dos dois países – que, juntos, têm 90% das armas nucleares em todo o mundo –, depois de em 2019 Estados Unidos e Rússia terem abandonado o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF, na sigla em inglês), assinado por Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchov em 1987, nos últimos anos da Guerra Fria.

Marshall Billingslea, o enviado especial norte-americano para as negociações sobre o nuclear, afirmou na terça-feira que existe “um acordo de princípio ao mais alto nível entre os dois governos”, sugerindo que haveria um acordo informal entre Donald Trump e Vladimir Putin.

Depois de um encontro no início de Outubro entre o conselheiro para a Segurança Nacional Robert O'Brien e Nikolai Patrushev, conselheiro de Vladmir Putin, Billingslea esteve reunido na segunda-feira em Helsínquia, na Finlândia, com o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Ryabkov, e disse que Washington estava disposto a “prorrogar o tratado New START por um determinado período de tempo”, com a condição de a Rússia “congelar” o seu arsenal nuclear.

Esta hipótese, que levou o enviado especial americano a falar na existência de um “acordo de princípio” entre os dois países, não caiu bem em Moscovo, com o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo a falar numa “ilusão” e numa “fraude”.

“A posição dos Estados Unidos a favor do congelamento [do arsenal nuclear] há muito que é do nosso conhecimento, e é inaceitável para nós”, afirmou Ryabkov, citado pela agência RIA. “Não porque sejamos contra o congelamento, mas porque é necessário lidar com os problemas da estabilidade estratégica como algo complexo”, justificou.

No mesmo sentido, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, afirmou esta quarta-feira que, para já, não vê “perspectivas” de um prolongamento do tratado New START, mas recusou “fechar a porta” aos Estados Unidos e prometeu continuar as negociações.

Por seu turno, o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, disse que os Estados Unidos estão dispostos a prolongar o acordo com a Rússia. “Vemos com agrado a oportunidade de concluir um acordo baseado nos entendimentos alcançados nas últimas semanas sobre a extensão do New START”, disse Pompeo, em conferência de imprensa.

Pressão

A apenas três semanas das eleições presidenciais nos Estados Unidos, Donad Trump, atrás de Joe Biden nas sondagens, procura recuperar a desvantagem e um acordo com a Rússia sobre o nuclear pode ser uma das cartas na manga do Presidente norte-americano.

Durante o seu mandato, Trump recusou comprometer-se com um prolongamento do New START, exigindo que a China também se sentasse à mesa das negociações. Mas, com as eleições cada vez mais próximas, aumenta a pressão para que haja um entendimento e a Administração Trump recuou e já admite conversações apenas com a Rússia, deixando a conversa com a China para mais tarde.

A Rússia, no entanto, parece disposta a esperar pelo desfecho das eleições de 3 de Novembro, antes de tomar uma decisão sobre o futuro do New START. “Se os americanos precisam informar os seus superiores sobre um suposto acordo com a Federão Russa antes das eleições, não o conseguirão”, assegurou Ryabkov.

Além disso, notam os analistas, um acordo conseguido à custa do congelamento do arsenal nuclear russo dificilmente seria aceite por Moscovo, que utiliza a retórica sobre o seu arsenal de ogivas nucleares como forma de pressionar os Estados Unidos e a NATO.

“A Rússia não vai concordar em abdicar de algo que diz respeito à maior preocupação dos Estados Unidos em relação à Rússia sem receber nada em troca”, disse o analista James Acton, especialista em questões nucleares, do think tank Carnegie Endowment for International Peace, ao The Guardian. “Se houver um acordo, os russos têm de receber algo em troca”, reiterou.