Covid-19: mais restrições em países europeus para tentar conter pandemia

Em alguns países, como a Bélgica, as medidas mais recentes serão o último passo antes de um novo confinamento.

Foto
Liverpool: a cidade vai entrar num nível de alerta que determina o encerramento dos pubs Reuters/PHIL NOBLE

Vários países europeus estão a aumentar as restrições para tentar travar o aumento de casos de infecção pelo coronavírus, avisando, em alguns casos, que se trata de um último passo antes de um novo confinamento.

Até agora, nenhum país europeu regressou a um confinamento nacional. No mundo, Israel foi o primeiro país a tomar esta decisão.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) posicionou-se entretanto contra o confinamento: “Nós na OMS não defendemos os confinamentos como o principal meio de controlo deste vírus”, disse o especialista David Nabarro à revista britânica The Spectactor. “A única altura em que acreditamos que os confinamentos são necessários é para ganhar tempo enquanto se reorganizam, reagrupam e reequilibram os recursos e se protegem os trabalhadores exaustos da área da saúde. Mas, mesmo assim, preferíamos não o fazer”, declarou.

“O apelo que deixamos aos líderes mundiais é: parem de usar confinamentos como método de controlo primário”, disse Nabarro. “Desenvolvam sistemas melhores para fazer esse controlo. Trabalhem juntos e aprendam uns com os outros.”

Alguns países invocam precisamente o risco de ruptura dos serviços de saúde, e o nível de ocupação de camas nos cuidados intensivos, para considerar novos confinamentos.

Apesar dos enormes aumentos do número de infecções, o número de mortes tem estado muito abaixo do da primeira vaga. Cientistas ouvidos pela revista alemã Der Spiegel resumem: primeiro, há sempre um período de tempo entre aumento de infecções e aumento de mortes (o tempo que a doença demora a desenvolver-se, que pode ser de mais de uma semana), mas mesmo tendo isso em conta, há uma diminuição.

Segundo, as infecções em vários destes países estão por agora a afectar os mais jovens, que têm muito menos probabilidades de adoecer com gravidade. Terceiro, os médicos já aprenderam muito sobre a covid-19 e embora não haja cura, sabe-se hoje muito melhor que efeitos podem aparecer e é possível, em alguns casos, agir para os prevenir. E, finalmente, há a hipótese de as medidas de distanciamento físico e limitação de contactos fazerem com que quem seja infectado apanhe uma carga viral menor do que o que acontecia no início da pandemia.

Em Itália, por exemplo, o número de infectados chegou na sexta-feira a 5000 novas infecções num dia, níveis de Março, mas com muito menos mortes, normalmente abaixo de 30 por dia, quando no final de Março chegou a haver 900 num só dia.

Em resposta ao aumento de infectados, o Governo preparava-se para anunciar medidas que incluem limites de pessoas em festas privadas, fixando um limite de dez pessoas convidadas para qualquer evento privado em casa, ou para outros como casamentos. Os funerais vão ter um limite máximo de 15 pessoas presentes.

Vai ser pedido ainda a empresas que aumentem as condições para o distanciamento físico nos locais de trabalho, e serão suspensos desportos amadores de contacto que envolvam mais de seis pessoas, por exemplo, jogos de futebol, segundo a agência Reuters.

Apesar disso, o Governo italiano anunciou que iria encurtar os períodos de quarentena de quem tivesse tido contacto com alguém infectado de 14 para dez dias.

O Governo britânico, por seu lado, considera que o país está “num ponto crítico da segunda vaga” e o primeiro-ministro, Boris Johnson, anunciou no Parlamento um plano que prevê para o território de Inglaterra três níveis de alerta com medidas diferentes para cada: médio, alto, ou muito alto.

O nível médio manterá as restrições em vigor, incluindo que pessoas que não vivam juntas não possam juntar-se em grupos de mais de seis pessoas, o nível alto, em que não é permitido qualquer convívio entre pessoas que não vivam juntas em espaços interiores e haverá uma hora de encerramento antecipada para restaurantes, bares ou bingos (22h), por exemplo, e o nível muito alto, em que não é permitido o convívio entre pessoas que não vivam juntas nem nos seus jardins particulares, os pubs e bares vão fechar, e poderão ser determinadas mais medidas, por exemplo em relação a casinos ou ginásios, com os líderes locais.

A cidade de Liverpool vai ser a primeira incluída no nível “muito alto”.

Na Bélgica - que durante o fim-de-semana foi o segundo país europeu com maior número de infecções -, o ministro da Saúde, Frank Vandenbrouke, foi questionado sobre um potencial segundo confinamento. “Infelizmente não posso excluir nada”, disse, “posso apenas anunciar, com relutância, um Outono muito difícil”.

Segundo o site Euractiv, responsáveis tanto na Flandres como na Valónia estão a considerar um segundo confinamento caso as novas medidas, que incluem o limite a três contactos de pessoas que não morem juntas, e encerramento de bares às 23h, não tragam resultados. “Estamos na última fase antes do confinamento”, disse o especialista em bioestatística Geert Molenberghs.

Também em França o primeiro-ministro, Jean Castex, disse que “nada pode ser excluído” em relação ao combate à pandemia, quando questionado sobre potenciais novos confinamentos locais. 

Castex declarou que no país não é possível, legalmente, proibir encontros em espaços privados, mas fez um apelo às pessoas para que o façam elas próprias. “Peço às pessoas que respeitem as medidas de protecção em espaços privados tal como fazem nos espaços públicos”, declarou.

Na Alemanha, onde também aumentaram os casos de infecção, entraram em vigor novas medidas em vários locais do país: em Frankfurt e Berlim, lojas, restaurantes e bares têm de fechar às 23h, hora a partir da qual também não é possível a venda de álcool em estações de serviço. No entanto, pelo menos em Berlim, houve relatos de incumprimento das lojas que costumam estar abertas toda a noite (Spätis).

Também no estado federado da Renânia do Norte-Vestfália entraram em vigor mais restrições: o número máximo de pessoas que não vivam juntas a poder encontrar-se em público foi reduzido a cinco, por exemplo.