Opinião

A dor insuportável de não poder partilhar o quotidiano de um filho

É muito estranho um pai ou uma mãe ter dois filhos, um de quem pode cuidar e educar, em regime de residência alternada, e outro de quem não pode cuidar, ausente por alienação.

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Na residência alternada, os filhos são educados e cuidados por ambos os pais. Na residência única, os filhos são educados e cuidados por um dos dois e fazem “visitas” ao outro. Na alienação parental, os filhos são educados e cuidados por um dos dois e impedidos de estar com o outro. Acontece, porém, que há casos em que, na mesma família, uns filhos estão em guarda partilhada e outros em situação de alienação parental.

A sociedade não pode desvalorizar esta situação, em que mães e pais estão impossibilitados de estar com algum(uns) dos seus filhos.

É muito estranho um pai ou uma mãe ter dois filhos, um de quem pode cuidar e educar, em regime de residência alternada, e outro de quem não pode cuidar. Não obstante o esforço possível para fazer frente à distância, enquanto a presença física ainda não é possível e procurando desenvolver outras “formas diferentes de dar amor”, não poder partilhar o quotidiano com o filho é uma dor insuportável, difícil de estimar para quem não se confronta com esse problema — é uma dor, muitas vezes, indescritível.

Mas é preciso dar voz a essa dor, fazê-la soar para que estas situações possam ser erradicadas de vez. O testemunho real da mãe Ana (nome fictício) demonstra-nos que há um aspeto em comum “... dar amor”, mas que “muitos são os aspetos em que se diferencia um filho em residência alternada de um filho alienado”.

É com uma enorme coragem que Ana nos relata que, quer estejam os filhos presentes ou ausentes, “há muitas formas diferentes de dar amor”. Ana refere que “educa ambos” pelo exemplo, daquilo que diz, pensa, escreve e faz, mas com o filho presente pode “corrigir a frase ou a palavra que disse mal” — com o filho ausente “nada oiço”.

Ao filho presente pode dar amor e cuidar dele, no seu dia a dia: “O aconchegar da roupa na cama, o pentear suavemente o cabelo, a partilha do momento de lavar os dentes entre as duas, em que sorrimos uns dias e ela chora no outro, porque o sono a vence.” Ao filho ausente procura dar amor através de “momentos substituídos pelas mensagens diárias, depois da meia-noite, no telemóvel... pelas idas à rede da escola na hora dos intervalos”.

Ana persiste, porque desistir não é solução, e “há muitas formas diferentes de dar amor”. Ao filho presente, Ana diz que pode “verbalizar o amor” quando simplesmente lhe diz: “Amo-te muito... Deus te guarde”; ao filho ausente: “A ele escrevo que estou aqui, como sempre estive, como nunca deixei de estar.” Do filho presente pode cuidar: “Preparo a lancheira, com o cuidado de pôr água e fruta... dar um abraço, um beijo, uma festa no cabelo”, mas do filho ausente não pode cuidar: “Escrevo, alimenta-te bem filho. Come coisinhas boas...”

No acompanhamento escolar também “há muitas formas diferentes de dar amor”. Ao filho presente “... levo ao ATL, todos os dias, na minha semana e visito uma ou outra vez no período do almoço, se é a semana do pai”; ao filho ausente “apresento-me no início da ano letivo à diretora de turma, não falho uma reunião”.

Mas é profunda a dor que esta mãe sente: “... Estou cansada, sim... há dias que me sinto injustiçada, sim... mas do amor de um filho, desistir não é opção. Então paro... descanso e sigo a vida para frente... quando cuido de mim, os meus filhos aprendem sobre amor próprio. Choro alguma vezes, mas nunca perdi uma noite sem dormir.”

A família próxima também sofre. Com o filho presente, “os avós, os tios, a madrinha, os primos... passeiam, fazem piqueniques, dão mergulhos de mar e amor...”; com o filho ausente “fazem uma ou outra chamada de longe a longe... cansados de injustiças, de não serem ouvidos, de não serem apoiados, de não serem cuidados na sua dor”.

Terminamos com um texto da Ana que é uma verdadeira mensagem de esperança, para que as todas as mães e pais que não têm consigo os filhos nunca desistiam deles, nunca desistam de acreditar que, um dia, vão voltar a abraçar aquele filho que agora está ausente: “Tudo tem o seu tempo, dei-lhe tempo. Tudo tem a sua vibração, alinhei essa vibração. Todos temos uma intenção positiva em tudo o que fazemos, procurei a intenção dele. Nos últimos três anos, dei-lhe mais do que exigi. Aos poucos, chegará o resultado. O amor, a verdade e a fé vão trazê-lo de volta, e o dia daquele abraço vai chegar, a tempo... No seu tempo. Mãe de dois. Educadora presente de um e cuidadora, dando amor à distância, de outro.”

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