Eu sei que é uma chatice: a Fome.

Iémen, Afeganistão e Sudão do Sul, são os três países onde a intervenção do Programa de Alimentação Mundial é maior. E é para eles e para tantos outros que estou a olhar com um sorriso que este prémio me desperta.

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LUSA/KHALED ELFIQI

Eu sei que é uma chatice. Eu sei que é muito mais excitante falar de sexo num comboio, dos ovários que uns querem tirar, das particularidades dos ciganos, das questiúnculas das presidenciais, ou daquela “frase ao lado” que a ministra da Saúde disse sobre já nem sei bem o quê, mas foi gravíssimo. Eu sei que é uma chatice, mas gostava de falar sobre as pessoas que estão a morrer à fome.

Há apenas uma certeza sobre a fome nos dias de hoje: “Não havia necessidade.” É totalmente incongruente com o desenvolvimento das capacidades do ser humano que existam tantos milhões de pessoas em vias de morrer à fome. Eu diria que é vergonhoso que o melhor que lhes podemos dar neste momento é um prémio. A fome está quase sempre acoplada aos grandes conflitos, e é usada e instrumentalizada como arma de guerra. Deixar as pessoas morrer à fome, promover que morram à fome, desenhar uma estratégia de guerra para que morram à fome, é tão frequente e legitimado nas mentes bélicas como qualquer outra arma, que sirva um propósito de uma vitória, se é que alguém ganha numa guerra.

É um Prémio Nobel da Paz, justíssimo e que carrega múltiplas análises importantíssimas aos dias de hoje. São desmultiplicáveis e claro interconectadas as mensagens que se podem aplaudir neste que é (discutivelmente) o maior prémio do planeta Terra:

  1. A importância das organizações. Não chega dar um quilo de arroz e uma roupinha. É preciso estrutura, grandes investimentos, reflexões maturadas e profissionais. Ambicionar a utopia da imparcialidade na ajuda a seres humanos. Numa altura em que alguns querem (e conseguem!) fragilizar as organizações mundiais, aqui fica mais uma prova de que é fundamental um olhar global para os problemas globais.
  2. Proporcionalidade. O foco das nossas atenções tem de estar à dimensão do problema. Ao canalizarmos as energias para superficialidades, esquecemo-nos que first things first, e acabar com a fome, a pobreza e guerra tem que ser o primeiro pensamento de todos que têm coração.
  3. Interdependência com a guerra. A maior parte das pessoas num conflito morrem pelas consequências indirectas do mesmo, doenças facilmente tratáveis e fome. E a mensagem do Comité Nobel encadeou os holofotes para essa mensagem poderosíssima: “Pelos seus esforços em combater a fome, pelas suas contribuições para o melhoramento das condições para a paz nas áreas afectadas por conflitos e por actuar como força motora nos esforços na prevenção da utilização da fome como arma de guerra.”
  4. A globalidade da pandemia. Tem sido óbvio em cada país que os pobres são os que mais sofrem quer pela doença, pelas consequências indirectas da doença. À escala global ainda é mais gritante. O empobrecimento e amedrontamento dos países ricos esmaga violentamente a fragilidade dos países pobres e as suas pessoas. A nossa empatia encontra muros mais elevados nas nossas fronteiras e a nossa vontade contributiva para causas humanitárias, tem ficado confinada nos nossos bolsos.
  5. A cultura da premiação. É preciso premiar a ajuda humanitária a todos os níveis da sociedade. É fulcral moldar a sociedade pelos valores, e no fundo, no fundo, todos sabemos quais são os mais importantes. A premiação, o elogio, o reconhecimento tem um poder enormíssimo na nossa sociedade, e não pode ficar reservado ao desporto, beleza, riqueza... Quando o que mais precisamos é de bondade, igualdade e humanidade.

Iémen, Afeganistão e Sudão do Sul, são os três países onde a intervenção do Programa de Alimentação Mundial é maior. E é para eles e para tantos outros que estou a olhar com um sorriso que este prémio me desperta, que não é de vitória, mas é de esperança. A esperança que através destes cinco pontos, consigamos oferecer sorrisos a quem nasceu do lado errado do planeta.

Penso sempre que podia ser eu, à espera que a comida caísse do céu em vez das bombas. E, por isso, penso neles. O prémio é vosso, na falta de melhor.