O que acontece às imagens quando Leonor Lopes as interrompe

Em colaboração com A.ves e Leonor Mendes, a jovem artista emergente apresenta Velã, desta quinta-feira e até sábado, na Rua das Gaivotas 6, em Lisboa.

artes-visuais,artes-performativas,cultura,helena-almeida,culturaipsilon,danca,
Fotogaleria
"Velã" está integrada no programa Young Emerging Performers
artes-visuais,artes-performativas,cultura,helena-almeida,culturaipsilon,danca,
Fotogaleria
A dança, conclui Leonor Lopes, “é mais um agente para criar um vocabulário” que as três (A.ves e Leonor Mendes) exploram em palco
artes-visuais,artes-performativas,cultura,helena-almeida,culturaipsilon,danca,
Fotogaleria

Leonor Lopes, A.ves e Leonor Mendes estão ajoelhadas ou sentadas no chão, entretidas a encher boiões com mãos-cheias de grãos e umas quantas avelãs. Quando terminam essa tarefa mecânica, indiferentes à presença de público, sentam-se numas cadeiras recuadas, diante de microfones e vão retirando dos boiões grãos que enfiam na boca e cospem em seguida. E vão cuspindo até descobrirem uma das avelãs, sinal para que duas das intérpretes se levantem e criem uma imagem diante do público. Velã, a peça que Leonor Lopes apresenta na Rua das Gaivotas 6, Lisboa, desta quinta-feira e até sábado, integrada no programa Young Emerging Performers (uma parceria das Gaivotas com O Espaço do Tempo), não é bem dança, não é bem teatro, não é bem performance, é um objecto híbrido enredado nas ideias de repetição e de interrupção.

Nascida em Santarém em 1999, Leonor Lopes cruzou-se com A.ves e Leonor Mendes na Escola Superior de Dança, acabando as três por se unir em torno de uma ideia de liberdade que reclamavam para lá dos ensinamentos colhidos naquele contexto. “Sempre quis trabalhar bastante a partir de imagens mais plásticas e materiais”, reconhece ao PÚBLICO Leonor Lopes. As duas co-criadoras e intérpretes de Velã acrescentam que acabaram por “procurar muito fora [da escola], em espectáculos e workshops, tentando chegar perto de pessoas que têm um trabalho que nos interessa” (A.ves) e que “a dança é importante para nós no sentido coreográfico de algumas imagens” (Leonor Mendes). A dança, conclui Leonor Lopes, “é mais um agente para criar um vocabulário” que as três exploram em palco.

As várias imagens que se vão sucedendo em Velã foram criadas a partir de desenhos, de um poema de Sylvia Plath ou de uma citação involuntária da obra de Helena Almeida (quando um fio vermelho — e não azul — atravessa o palco e se anicha na boca de Leonor Mendes), que as três performers foram depois traduzindo em “micro-estruturas de repetição dentro de uma macro-estrutura de repetição”, como lhe chama Leonor Lopes. O recurso ao dispositivo de grãos e avelãs, no entanto, garante que a peça nunca está sob controlo, devido à aleatoriedade do processo, podendo levar a que algumas imagens pareçam tender para o infinito e outras mal tenham tempo de se fixar. No fundo, era essa investigação que Leonor queria levar a cabo: “O que acontece a uma imagem se ela for interrompida ou se nem chegar a acontecer, ou até o que nos acontece a nós como intérpretes quando essa mesma imagem é interrompida.” E a conclusão possível a que chega é a de que “a interrupção da imagem é tão forte quanto a própria imagem”.

O trio voltará a estar presente numa peça de A.ves, Sonho que Não se Pode Quebrar e Não se Pode Quebrar e Não se..., apresentada também na Rua das Gaivotas 6, de 22 a 24 de Outubro, na qual Leonor Lopes participa como intérprete (ao lado de A.ves, Patrícia Alves e Francisco Arez) e Leonor Mendes contribui enquanto assistente da criação, e que parte do quadro The Dream, de Henri Rosseau, para gerar uma proposta completamente diferente.