Samuel L. Jackson explora a escravatura e o seu passado em Enslaved

A minissérie documental da Epix que chega cá via HBO Portugal passa às terças-feiras e investiga a história do comércio transatlântico de escravos.

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Samuel L. Jackson, Afua Hirsch e Simcha Jacobovici são as caras de Enslaved: The Lost History of the Transatlantic Slave Trade, uma nova minissérie documental sobre o comércio transatlântico de escravos.

Samuel L. Jackson é uma das estrelas mais rentáveis de Hollywood. É também a cara de Enslaved: The Lost History of the Transatlantic Slave Trade, uma minissérie documental da Epix que nos chega cá via HBO Portugal e cuja exibição vai a meio. Enslaved é sobre 400 anos de escravatura transatlântica e as suas repercussões no dia hoje.

Em cada episódio, o quarto dos quais foi disponibilizado esta terça-feira, vemos o actor a viajar e a descobrir mais sobre a escravatura e o seu passado. No episódio de estreia desta minissérie sobre o comércio transatlântico de escravos, por exemplo, um teste de ADN fá-lo ir até ao Gabão, donde os seus antepassados são originários, e participar num ritual de iniciação na tribo Benga. Mas nem só de Jackson vive a série. Há mais dois elementos que vão sendo alternados com essa busca do actor. Vemos equipas de mergulho em alto-mar a procurarem navios de escravos afundados. O Oceano Atlântico, por exemplo, tem uma abundância deles. Os casos desses barcos, com pessoas atiradas ao mar como se de carga se tratasse, para aliviar o peso, e processos em tribunal quando as seguradoras se recusavam a pagar aos esclavagistas pela perda dos seus bens que eram pessoas, também são analisados. Por fim, os jornalistas Afua Hirsch, que é britânica e nasceu na Noruega, e Simcha Jacobovici, que é israelo-canadiano, a encontrarem a rota da escravatura, falando com especialistas e vendo os sítios onde tudo se passou.

Um desses sítios a que Enslaved vai é Lagos, no Algarve, descrito como o sítio onde o tráfico começou, quando o Infante D. Henrique estabeleceu as primeiras rotas comerciais navais para a África Ocidental. Simcha Jacobovici visita a Praça Infante D. Henrique, onde há uma estátua do próprio e onde, em 1444, se vendiam os primeiros africanos escravizados. Jacobvici, a falar com a arqueóloga Elena Morán, estranha o Infante ser considerado um visionário, e ainda haver, ali ao lado, um campo de minigolfe, o Pro Putting Garden, construído por cima de uma vala comum de escravos que eram descartados quando já não serviam, em vez de fazerem algo para as pessoas recordarem esta história. Foram encontrados, nessa vala, pelo menos 155 esqueletos, alguns com as mãos e os pés atados, ou mães com filhos ao colo.

Mas há muitos mais cenários, desde o Rio de Janeiro, onde se vendiam africanos a peso, a Londres, passando por Bristol, um porto importante do tráfico de escravos, pelas Caraíbas ou pelos Estados Unidos. Fala-se, por exemplo, da produção de açúcar, para a qual os escravos africanos foram levados para o Brasil, e como há nela aspectos que não mudaram ao longo de centenas de anos, ou da forma como o consumo de café potenciou o açúcar. Refere-se também a forma como a cultura africana influenciou o mundo inteiro, do código binário à música de banjo.

Através de objectos pertencentes a estas pessoas que eram tratadas como objectos, tenta-se reconstituir um pouco das suas identidades, e mostrar como escravos vindos de zonas diferentes do globo tinham personalidades, culturas e costumes distintos. 

Enslaved: The Lost History of the Transatlantic Slave Trade faz um retrato da desumanização total a que as pessoas escravizadas estavam sujeitas.

Por causa do tema em questão, pode ser complicado por vezes ter estômago para seguir a série, até porque há muitas vezes alguma leviandade, como quando Samuel L. Jackson tem reacções engraçadas, ou quando Rhiannon Giddens, que toca banjo, canta no quarto episódio.

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