Salvini em tribunal para saber se vai a julgamento por sequestro

Enquanto era ministro do Interior, Salvini impediu barcos com migrantes de atracarem em Itália e pode agora vir a sentar-se no banco dos réus.

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Matteo Salvini à saída do tribunal de Catânia ANTONIO PARRINELLO/Reuters

Matteo Salvini compareceu este sábado num tribunal de Catânia, na Sicília, que decidirá se o líder da extrema-direita italiana será julgado pelo crime de sequestro, quando em Julho do ano passado, enquanto ministro do Interior, ordenou à guarda costeira que bloqueasse a entrada de um barco com 131 migrantes, resgatados por uma organização não-governamental no Mediterrâneo, mantendo-os vários dias no mar em condições muito difíceis.

Depois de umas eleições regionais em que apostou tudo em tirar a Toscana ao Partido Democrata e não conseguiu, o homem que derrubou a coligação governamental para chegar a primeiro-ministro e viu o seu parceiro de coligação, o Movimento 5 Estrelas, aliar-se ao centro-esquerda e afastá-lo do poder, está a enfrentar uma travessia do deserto que em pouco mais de um ano o pode levar de um dos líderes do populismo de direita na Europa ao ocaso político e a um possível julgamento em tribunal.

Sem o seu foro privilegiado de senador, depois do levantamento da sua imunidade parlamentar ter sido votada favoravelmente pelos seus pares, Salvini está assim nas mãos do juiz que vai decidir se o sequestro e abuso de poder em relação à ordem de impedir o navio Gregoretti de atracar no porto de Augusta, na Sicília, tem pernas para ir a julgamento.

Mas este não é o único processo judicial que Salvini enfrenta, já que o Senado também lhe levantou a imunidade em relação a outro barco que foi proibido de desembarcar 164 migrantes resgatados do mar por um navio de salvamento. Uma audiência preliminar sobre este caso está pendente.

Durante os seus 14 meses como ministro do Interior, Salvini aplicou uma política de portos fechados aos imigrantes, tentando pressionar outros Estados-membros da União Europeia a se comprometerem a dividir com Itália e outros países do Sul o “fardo” de receber os migrantes que diariamente atravessam o Mediterrâneo para tentar chegar à Europa.

Vários navios com migrantes viram-se assim obrigados a esperar em alto mar, sem condições dignas para oferecer às pessoas resgatadas, antes de os países europeus encontrarem um porto alternativo para desembarcar os migrantes ou os tribunais decidirem obrigar as autoridades a deixar os navios atracar em Itália.

Salvini vê o julgamento com bons olhos (chegou mesmo a pedir que lhe levantassem a imunidade para usar o tema na campanha eleitoral), considerando que poderá aproveitar o espaço para defender a sua política e criticar muitos dos países da UE de hipocrisia, ao mesmo tempo que pode limpar o seu nome.

No entanto, lutou para manter a imunidade num terceiro caso que lhe foi apresentado enquanto ainda era ministro, ganhando assim protecção contra acusações por não permitir que 190 migrantes saíssem de outro navio da guarda costeira em agosto de 2018.

Matteo Salvini continua a ser o líder partidário mais popular de Itália, mesmo que o seu apoio tenha descido cerca de 10% nas sondagens desde as eleições de 2018, que o levaram ao Governo e onde se tornaria o político mais popular do país. com Lusa