Crítica

O sonho de Tristany a afirmar-se em palco

A cultura musical urbana da Linha de Sintra deixou o São Luiz rendido. Tristany tem tudo para dar certo.

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Vera Marmelo

Depois do MusicBox, foi a vez da Galeria ZDB ocupar durante uns dias o teatro municipal São Luiz com uma programação própria, contornando a impossibilidade de se realizarem espectáculos no conhecido espaço do Bairro Alto, em Lisboa.

A última noite de programação foi a de sexta-feira, constando do cartaz Tristany e Odete & Alice dos Reis. As últimas, na companhia da harpista Rebeca Amorim, estrearam Portal, combinação de som, texto, canto e instalação, num espectáculo elegante, onde o pessoal e político, os detalhes autobiográficos e a abstracção, se articularam para projectar possíveis futuros.

Quanto a Tristany, depois de se ter estreado no Lux-Frágil há cerca de uma semana, no contexto do festival Todos, iria revelar as canções do seu álbum de estreia, Meia Riba Kalxa, que desde que foi lançado no Verão tem vindo a dar muito que falar.

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Havia muita expectativa. Ainda não entrou no domínio popular, nem é garantido que venha a acontecer porque a sua música não é de apelo imediato, mas aos 24 anos o culto à sua volta está nitidamente a ampliar-se. Percebeu-se isso, no final, quando o público que adquiriu todos os bilhetes disponíveis, se levantou e aplaudiu com muito entusiasmo os intervenientes em palco.

E aqueles fizeram por merecer a excitação. Sente-se nitidamente que ver hoje Tristany ao vivo, é assistir em tempo real ao irromper de algo com características singulares. Claro que existem pontos de ligação com a cultura hip-hop ou com as dinâmicas mais recentes da música afro-portuguesa, mas é como se, em palco, isso fossem ecos distantes, mais fantasia do que realidade.

Em primeiro lugar o que surpreende é a serenidade, a naturalidade e elegância com que tudo é feito. Era apenas o segundo concerto daquela formação, e o primeiro numa sala com aquelas características, e parecia que sempre haviam estado por ali. É tudo muito simples. O cenário é magnificamente ornamentado com camisolas num estendal. A forma como Tristany se dirige ao público é generosa, nunca se lhe impondo, numa atitude de troca. E em palco sente-se que está uma família.

Depois existe a música. No início, quando DJ Blackfox entra em palco, e lança alguns ritmos quebrados próximos do kuduro, ainda haverá quem pense que irá assistir a um arsenal rítmico. Mas não. O ambiente que se institui quando todos estão em palco é quase cósmico, nebuloso e fluido, por vezes nem se percebe quando um tema acaba e outro começa, e muito emocional. A voz de Tristany tanto se aproxima do canto quase fadista, como de seguida se insinua pelo rap, enquanto a guitarra de Célio Cardoso, o violino de Susana Francês e os ritmos libertados por Ari Tavares se espreguiçam langorosamente.

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É preciso disponibilidade para entrar naquele universo. Mas quando isso acontece, pode-se ficar irremediavelmente por lá. Há histórias de amor, de amizade, de crescimento adolescente, de corpos negros injustiçados, de viagens de comboio que separam (ou aproximam?) Mem Martins de Lisboa, tudo feito com grande dignidade, respirando uma aragem de verdade como é raro vislumbrar-se por aí. E como se não bastasse, já existem algumas canções que se alojam no ouvido, apesar da sofisticação estrutural – por vezes parece que ouvimos duas canções numa só, como em Rapepaz, Amor de jinga ou Naxer du sol. O ambiente é quase sempre distendido, mesmo quando entra em acção mais um percussionista. Mas quando é preciso afirmar a energia e vigor de forma concreta ela também irrompe.

Já se percebeu que não serão o tipo de formação que se limitará a replicar os temas do disco ao vivo. O leque de hipóteses é imenso. A guitarra por vezes é estridente, aproximando-se do rock, coisa que não acontece no disco, e o jogo entre motivos acústicos, eléctricos e electrónicos pode conduzir a diversos patamares. Ou seja, o leque de opções, a partir do momento em que Tristany definiu um espaço original para si próprio, parece incomensurável. Coragem e engenho não lhe faltam. Já não existem dúvidas. Haverá de contar com ele nos próximos tempos.

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