De Todas as Coisas Maravilhosas, “o toque é algo de que todos temos saudade”, declara Ivo Canelas

O actor está de volta aos palcos para falar sobre a saúde mental num ambiente intimista, com distanciamento social.

Foto
DR

O monólogo Todas as Coisas Maravilhosas, escrito por Duncan Macmillan e interpretado por Ivo Canelas, está de volta ao Estúdio Time Out, em Lisboa, até 18 de Outubro, e subirá ao Porto, a 7 e 8 de Novembro, no Hard Club. O espectáculo aborda temas como a “saúde mental, depressão, suicídio, estratégias de comunicação e de sobrevivência, e a importância que a música pode ter”, resume o actor ao PÚBLICO. Perante os danos causados pela pandemia no bem-estar emocional de muita gente, o monólogo ressurge como um exemplo de “tudo o que a arte faz por nós”, define.

​O espectáculo, que inclui improviso e interacção com os espectadores, debruça-se sobre uma enumeração das coisas maravilhosas que a vida tem. Na nova realidade, uma delas torna-se “evidente” para o actor: o toque. O toque é algo de que todos temos saudade”, ressalva. Como sociedade, Ivo Canelas realça a generosidade dos portugueses em tocar, abraçar e beijar, até desconhecidos — “é muito curioso, isso não é característico de todos os povos”. Por isso, salienta a falta que faz dar um abraço por impulso, sem estar a pensar se deve ser dado de “lado ou de esguelha.

Com a pandemia, “somos mundialmente relembrados, em simultâneo, de que nada é garantido”. Como tal, o actor destaca a necessidade, agora ainda mais justificada, de “falar e partilhar aquilo que se sente” — seja com amigos e familiares ou com profissionais de saúde mental. “Conceptualmente, este espectáculo já fazia sentido, agora faz ainda mais sentido”, resume. 

Ivo Canelas fala das várias dimensões do isolamento vivenciado — o físico e aquele em que “mesmo juntos, às vezes, ficámos isolados, dentro de nós próprios” — e da influência negativa da Internet, que nos fechou em “bolhas estranhas tudo menos saudáveis.” O actor destaca a falta de perspectiva de um futuro melhor enquanto se vivia a quarentena, com uma das frases do espectáculo: “Para conseguirmos viver no presente, temos de ser capazes de imaginar um futuro que seja melhor do que o passado.” 

Uma audiência diferente

Na segunda-feira, dia 28 de Setembro, na plateia esteve uma equipa de médicos. A experiência, “desafiante”, foi a primeira sessão em algum tempo, e ficou marcada pela “readaptação ao espaço”, imposta pelas medidas de protecção por causa da covid-19. “Nós queríamos devolver algo à linha da frente da saúde e, portanto, foi muito bom que eles estivessem disponíveis para aparecer, com os horários complicados que têm”, conta. 

Assim, a apresentação foi “importante para experimentar a nova disposição” da sala e as alterações “em relação à manipulação de objectos” durante o espectáculo. Aquilo que antigamente se assemelhava a “uma sessão de terapia de grupo”, com as pessoas sentadas em cadeiras e o actor a falar entre elas, é agora adaptado ao distanciamento social. Sendo um ambiente de proximidade, diferente daquele que um palco tradicional oferece, teve de se criar mais distância entre as pessoas e o actor. “Isso obriga-me a vibrar com mais intensidade para tentar manter a mesma sensação de intimidade que a versão antiga tinha”, explica.

Além disso, os tempos pedem “um uso incontornável do álcool gel”. Exigências que o actor faz questão de tornar “características divertidas do espectáculo", ridicularizando o uso excessivo do desinfectante. “Tentei incluir e readaptar essas realidades neste monólogo, porque é também um momento lúdico e informativo”, explica.

Já a máscara é um desafio à intimidade. “Há uma sensação de anonimato”, diz. “As pessoas sentem-se menos expostas. Eu acho sempre que os olhos mentem com maior facilidade do que a boca. Conseguimos manter alguma naturalidade no olhar, muitas vezes escondendo algumas emoções, por treino social; e a boca, às vezes, revela coisas que não conseguimos bem controlar, pequenas microexpressões. A verdade está algures na soma das duas coisas.” Para o actor, o uso da máscara torna-se uma dificuldade, pois precisa de se “apoiar nessas microexpressões e coisas que às vezes deixamos escapar (boas e más)” durante o monólogo. 

Ivo Canelas garante que “é essencial não nos fecharmos em casa e tentarmos manter alguma normalidade” e os espectadores parecem concordar. Afinal, os dias do espectáculo estão quase todos esgotados e a produção está já a considerar a hipótese de abrir sessões extras. 

Texto editado por Bárbara Wong