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Graça Pina de Morais: relatos íntimos da perdição humana

Crua, acutilante, atenta ao detalhe que denuncia o abismo, narradora privilegiada do íntimo, permanece misteriosamente por descobrir. Já não há desculpas para não se conhecer uma das mais estimulantes autoras portuguesas. Depois de reeditados os romances, reúnem-se numa única edição todos os seus contos: Contos Completos.

O chapéu branco desenhou um padrão de pequenos losangos no rosto da mulher. Já não é nova, ainda não é velha. Por detrás do rendilhado daquela sombra, ela sorri e tem um dente mais ou menos saliente sobre o lábio. Parece estar debruçada num muro, deitada na areia, e olha para a câmara. O cabelo é curto, com alguns jeitos. Sobressai-lhe uma manga curta, pelo ombro. A foto não tem uma data, a definição não é a melhor, mas reforça o enigma em que a escritora permanece envolta e é fácil atribuí-la ao período em que escreveu o último conto, A Mulher do Chapéu de Palha, publicado postumamente em 2000. Dele, diz-se que é o mais autobiográfico de todos os escritos de Graça Pina de Morais.