Opinião

Como quer ser quando for idoso?

No meio de tantas incertezas e tragédias “covidianas”, o Dia Internacional do Idoso deveria servir para refletirmos sobre os valores que queremos compartilhar num mundo cada vez mais envelhecido.

Há 30 anos, a Assembleia Geral das Nações Unidas designou o 1.° de outubro como o Dia Internacional do Idoso​, com o objetivo de sensibilizar a sociedade para as questões do envelhecimento e da necessidade de proteger e cuidar da população mais idosa.

Estima-se que nas próximas três décadas o número de idosos em todo o mundo mais que duplicará, ultrapassando 1,5 mil milhões de pessoas em 2050. Portugal, em 2050, deverá ter 32% da sua população na faixa etária dos 65 anos e mais.

A primeira coisa que devemos ter em mente é que chegar com saúde aos 65 ou mais anos exige medidas de cuidados que se iniciam nas fases mais tenras da nossa vida, antes mesmo do nascimento. A evidência científica demonstra, por exemplo, que um bebé que nasce com baixo peso ou prematuro terá mais probabilidade de desenvolver precocemente doenças como diabetes, hipertensão ou obesidade.

Os cuidados ao longo da fase do desenvolvimento da criança também são fundamentais para a sua saúde no futuro. O aleitamento materno e a participação parental amorosa e cuidadosa permite que o bebé, gradualmente, desenvolva em sua mente competências para lidar com desafios futuros. A prática de atividade física e de uma alimentação saudável no período escolar irão fazer diferença. Da mesma forma, garantir uma educação plena e de qualidade é fundamental para que as crianças, principalmente as que vêm de extratos sociais mais desfavorecidos, possam ter acesso à informação e conhecimento e utilizá-los em benefício da sua saúde e da comunidade em que vivem quando adultos.

As condições de vida e de trabalho são igualmente importantes para uma melhor saúde na fase adulta da vida. Privações materiais ou condições de trabalho inseguras e insalubres contribuem para o desenvolvimento precoce de doenças crónicas.

Por sua vez, hábitos como o tabagismo, o abuso de álcool e uma alimentação baseada em produtos industrializados são, comprovadamente, inimigos do envelhecimento saudável.

Ter uma rede de amigos na comunidade com a qual possamos interagir e apoiar-nos mutuamente é fator protetor na velhice. Serviços sociais e de saúde acessíveis, com competências para lidar com as questões muito específicas desta fase da vida são essenciais.

Envelhecer com saúde traz, portanto, o desafio de termos a consciência de que as escolhas e as atitudes que tomamos no quotidiano terão repercussões nas fases mais adiantadas da nossa vida. Ou seja, da mesma maneira que somos provocados a pensar, quando jovens, o que vamos ser quando crescermos, deveríamos, igualmente, sermos provocados a pensar como queremos chegar às fases mais adiantadas da nossa vida.

Entretanto, se almejamos uma sociedade na qual as pessoas possam envelhecer com saúde e que tenham qualidade de vida nas fases mais avançadas da vida é fundamental que o Estado assuma a responsabilidade de colocar no centro das suas decisões o bem-estar da população. Afinal, as políticas públicas assumem papel fundamental em todas as etapas de nossa vida e contribuem decisivamente para a diminuição das desigualdades sociais que tanto afetam negativamente a vida das pessoas.

O ano de 2020 está a trazer marcas profundas para a população idosa em todo o mundo devido à pandemia da covid-19. Como muito bem destacou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a pandemia não só trouxe impacto imediato na saúde, mas está a colocar os idosos em maior risco de pobreza, discriminação e isolamento.

No meio de tantas incertezas e tragédias “covidianas”, o Dia Internacional do Idoso deveria servir para refletirmos sobre os valores que queremos compartilhar num mundo cada vez mais envelhecido.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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