Opinião

A Barca do Inferno

Estou de acordo com aqueles que dizem que o caso de Rangel ainda é pior do que o de Sócrates, pois atinge a instituição judiciária: quem vai acreditar na justiça se os juízes se puserem à margem da lei?

“Auto” tanto pode ser uma peça de um processo judicial como uma peça de teatro. Os autos da Operação Lex fizeram-me lembrar o Auto da Barca do Inferno, que Gil Vicente escreveu em 1517. Neste último há um corregedor, carregado de papéis, que o diabo manda entrar na sua barca. O diabo, que é velho, não tem dúvidas em condená-lo por corrupção. Diz-lhe, misturando latim: “— Quando éreis ouvidor/ Nonne accepistis rapina? [não aceitastes subornos?]/ Pois ireis pela bolina/ onde nossa mercê for.../ Oh! que isca esse papel/ pera um fogo que eu sei!” Quando o juiz se defende – “Sempre ego justitia fecit [sempre fiz justiça]” –, o diabo responde: “— E as peitas [subornos] dos judeus/ que a vossa mulher levava?” O corregedor culpa a esposa: “— Isso eu não o tomava,/ eram lá percalços seus.” Surge depois um procurador, carregado de livros, que beija os mãos do corregedor e afirma: “— Eu mui bem me confessei,/ mas tudo quanto roubei/ encobri ao confessor...” Os dois ainda tentam ir na Barca da Glória, guardada por um anjo, mas debalde. Acabam na Barca do Inferno, onde encontram Brísida Vaz, uma dona de bordel com a qual o juiz mostra familiaridade. Navegam para o Inferno, na companhia de um onzeneiro [agiota], um judeu usurário, um fidalgo e um frade cortesão. No cais a ver a cena fica Joane, um parvo.