Líderes da UE desalinhados no arranque da cimeira dedicada à política externa

Presidente do Conselho Europeu alterou a ordem de trabalhos e abriu a reunião com um debate sobre a relação da UE com a Turquia. Mas vários líderes preferiam estar a discutir outros assuntos, como a recuperação da crise.

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Primeiro-ministro, António Costa, reuniu com o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, antes do início da cimeira LUSA/JOHN THYS / POOL

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, decidiu alterar o programa de trabalhos preparado para a cimeira extraordinária dos líderes europeus que arrancou esta quinta-feira, em Bruxelas, e abrir a sessão com a discussão sobre a relação da União Europeia com a Turquia, em face das acções desestabilizadoras do regime de Ancara no Mediterrâneo Oriental ou do seu possível envolvimento no conflito de Nagorno-Karabakh — porventura o tema mais sensível da agenda e cujo debate se adivinhava mais demorado.

Resta saber se o fez por saber da importância vital que o assunto tem para a Grécia e Chipre, cuja integridade territorial tem sido ameaçada pelas manobras de prospecção da frota turca no Mediterrâneo, ou se foi uma tentativa de garantir a total atenção dos chefes de Estado e Governo da União Europeia, que, em declarações à chegada para o encontro, demonstraram estar focados num outro assunto da actualidade que não constava na agenda, quase integralmente dedicada a matérias de política externa.

“Alguém se esqueceu de pôr o tópico mais importante, que é a pandemia de covid-19, na agenda. Este é um assunto que tem de ser discutido em detalhe, porque a cooperação na União Europeia não está a funcionar”, criticou o primeiro-ministro checo, Andrej Babis, antes do início da reunião.

Pouco depois, o seu homólogo da Croácia insistia na mesma tecla. “O meu objectivo principal é discutir a recuperação económica e social dos países europeus no rescaldo na crise provocada pela pandemia”, revelou Andrej Plenkovic,, acrescentando que também esperava “discutir vários outros tópicos importantes” de relações internacionais, para os quais será preciso “encontrar o consenso” entre os 27.

A referência era para a necessidade de ultrapassar a resistência de Chipre à reposição das sanções da UE à Bielorrússia. No rascunho das conclusões, que deverão ser adoptadas no final da cimeira, na sexta-feira, os 27 confirmam que não reconhecem a legitimidade da eleição que reconduziu Aleksander Lukashenko na presidência do país. Mas para Chipre deixar cair o veto às sanções, era preciso que os líderes respondessem às suas exigências no dossier da Turquia. Depois de horas de discussão, o consenso ainda estava distante.

Igualmente mais interessados em discutir a resposta europeia à pandemia, os parceiros ibéricos, António Costa e Pedro Sanchéz, prometeram aproveitar a oportunidade proporcionada pela cimeira para sensibilizar os restantes líderes para a urgência de chegar a um entendimento com o Parlamento Europeu que permita a aprovação dos regulamentos do próximo quadro financeiro plurianual e fundo de recuperação da crise.

“Quanto mais o tempo passa, mais a crise se aprofunda”, vincou o primeiro-ministro, que ainda espera que os co-legisladores acertem posições a tempo de cumprir o calendário previsto para o arranque do plano de recuperação, no início de 2021. Considerando que as actuais divergências entre os eurodeputados e os Estados-membros são “legítimas”, António Costa disse que nesta altura “é necessário que todos compreendam este sentido de urgência: não podemos atrasar o início do processo, porque cada dia que perdemos é um dia que compromete a recuperação da economia e dos empregos”, frisou, em declarações aos jornalistas portugueses em Bruxelas.

Sem se referir explicitamente ao braço-de-ferro entre as duas instituições, ou às posições opostas dos países do grupo de Visegrado e dos chamados “frugais”, o presidente do Governo espanhol defendeu que “é preciso mover o debate sobre a recuperação da crise do campo partidário, e trabalhar para aprovar o Orçamento e avançar com o plano”.

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