Benedita Pereira: “Fazer uma comédia é sempre importante em tempos de crise”

Saltou para o mundo da televisão e interpretou Joana, uma das personagens mais marcantes da série Morangos com Açúcar, aventurou-se por palcos de Nova Iorque e está de regresso ao Porto.

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Benedita Pereira no Salão Nobre do Teatro Nacional São João Paulo Pimenta

Benedita Pereira já não é a jovem que chegou aos ecrãs na primeira série dos Morangos com Açúcar. De 2003 para cá fez televisão, teatro, rumou aos EUA, regressou, mas estar na sua cidade, o Porto, “tem sempre um sabor muito especial”. Nesta quinta-feira, as portas do Teatro Nacional de São João abrem-se para receber a Comédia de Bastidores, uma peça que tanto tem de cómico como de sério, e que fica até dia 11 na sala portuense.

“Sabe-me bem estar em casa com a família e sair todos os dias para trabalhar num sítio incrível”, confessa ao PÚBLICO, reforçando que “o sítio também é feito das pessoas”, nomeadamente do elenco e dos encenadores com quem trabalha. Absurd Person Singular é o titulo original do dramaturgo britânico Alan Ayckbourn, peça que Nuno Carinhas e João Cardoso encenam para seis actores: Benedita Pereira, Catarina Gomes, Paulo Freixinho, Pedro Frias, Pedro Galiza e Sara Carinhas.

Este é um desafio que, aos 35 anos, a actriz reconhece deixá-la “um bocadinho nervosa”, mas abraça-o sem medo: “Sempre que me dão essa oportunidade venho a correr. É um prazer enorme e uma honra, aliados a muita responsabilidade.” O convite chegou há um ano, ainda “antes de engravidar”, conta, e disse logo que sim a uma proposta com um horário “não tão intenso como o de filmagens”.

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“Foi o melhor trabalho para fazer após ter sido mãe e neste período de pandemia”, reconhece, explicando que conta com o apoio da família para conciliar o trabalho e a maternidade. “Arranjei forma de ser uma coisa boa: trabalhar, voltar, estar cheia de vontade de estar com ele [o filho] e, ao mesmo tempo, sentir-me realizada como mulher e como actriz, sem ser só como mãe, que é muito importante, mas para mim também é importante continuar a trabalhar.”

Cuidados com a pandemia

Os ensaios, que começaram no início de Agosto, foram corridos a medições de temperatura. “Ninguém tem tido febre, pelo menos eu sei que estou sempre sem febre”, brinca. Já a máscara é um impedimento à representação, por isso, os actores não a usam o que os pode deixar mais expostos, mas Benedita Pereira garante: “Ninguém anda com uma vida muito louca porque temos a consciência de que podemos pôr todo um espectáculo em causa.”

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Benedita Pereira está de regresso ao Porto, a cidade que a viu crescer Paulo Pimenta

Além de quem está no palco e nos bastidores, a actriz preocupa-se também com os espectadores: “Sei que não é muito agradável estar de máscara a ver um espectáculo, mas as pessoas têm necessidade de começar a ter vida cultural.” Ainda que com algumas limitações, “é melhor do que estarmos fechados em casa”, defende. 

E nada como ver uma comédia, continua. “É ideal e não é só nestes tempos”, sublinha Benedita Pereira, para quem “fazer uma comédia é sempre importante em tempos de crise”. Aliás, fazer as pessoas rir é das coisas de que mais gosta, “não só como actriz mas como pessoa”, e com esta peça quer entreter de tal forma “que as pessoas se esqueçam que estão [a assistir] de máscara”. E continua: “É mesmo importante estarmos durante duas horas focados noutras pessoas, a ver uma data de disparates e a não pensar na pandemia e nos problemas. Só espero que as pessoas sintam um bocadinho do que eu sinto quando vêm ver o espectáculo.”

Três casais e três natais

“A acção passa-se em três natais consecutivos e centra-se em três casais que por algum motivo precisam uns dos outros — é um bocadinho uma sátira a esta coisa da burguesia e às parcerias que fazemos para chegar a um certo sítio”, explica ao PÚBLICO. As personagens são co-dependentes para satisfazer as suas necessidades, mas vivem isoladas nos seus mundos. “Não há uma que se safe”, sublinha. Benedita Pereira interpreta a mulher do casal “que está em cima e vai decaindo ao longo da peça”.

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“Há os que sobem, os que descem, os que vão enriquecendo, os que vão empobrecendo, as pequenas vinganças e a hipocrisia do próprio casamento e das parcerias intra e inter casal”, descreve. Mas trata-se de uma comédia, um género que exige a responsabilidade de fazer rir o público. “E se as pessoas não se riem?”, questiona-se. Embora, na vida real, esteja “sempre com uma piadinha na ponta da língua”, em palco o processo complica-se com “o peso da responsabilidade”. Dá muito trabalho fazer com que as coisas batam certo para as pessoas se rirem. Espero que se riam. E nem sempre se vão rir nos mesmos momentos. Se calhar vão-se rir em sítios que nós não estamos à espera. Estou cheia de medo disso, também me desconcentra”, diz, com um riso nervoso. 

Mas embora se trate de uma comédia, Benedita Pereira garante que há “um lado negro e uma crítica à sociedade” muito presente. A peça explora questões como o casamento, o adultério, os conflitos de classe e as pequenas obsessões. “Não é só uma comédia para nos rirmos e nos esquecermos do que foi dito”, prossegue. A actriz reforça que, apesar de o texto original ter sido escrito nos anos 1970 em Inglaterra, continua muito actual. “A burguesia continua a existir, a hipocrisia continua a existir, os casamentos por conveniência continuam a existir — às vezes nem começaram por conveniência, mas acaba por ser só conveniente continuar no casamento”, interpreta.

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Contudo, a actriz reconhece que comparativamente aos idos anos 1970 o papel da mulher mudou. Não muito, mas mudou. “As mulheres, em termos de profissões, eram apêndices dos homens e hoje isso já não acontece tanto. Apesar de tudo, na peça são elas que fazem abanar o barco, são elas que fazem muitas vezes a acção andar para a frente.” Em palco vive-se num “mundo profundamente machista”, que “infelizmente ainda existe”.

A crise da profissão

Teve uma relação intermitente com os EUA “muito longa” que lhe “abriu os olhos para muitas coisas que não tinha noção” a nível cultural, religioso, linguístico e até de metodologias de trabalho. “O meu percurso fez-me crescer de uma maneira muito diferente do que, provavelmente, se eu tivesse ficado por aqui”, reflecte. Tendo co-produzido uma peça de teatro intercultural “muito completa” durante a sua temporada em Nova Iorque, Benedita Pereira expressa a vontade de voltar a participar em trabalhos com pessoas muito diferentes”, pois reconhece a aprendizagem e crescimento pessoal que trazem. 

Depois de regressar de Nova Iorque, há quatro anos esteve no São João. Mas a última vez que subiu a palco foi com Os últimos dias da humanidade, em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. “Depois tive um grande interregno de teatro”, diz, em parte por causa dos projectos que estava a fazer em televisão. Agora quer concentrar-se em Comédia de Bastidores que, para o ano, descerá até Lisboa. E, quem sabe, levar avante um espectáculo que viu “lá fora”. “Com calma”, diz estar a criar o seu próprio percurso.  

No entanto, na sua profissão nem sempre é fácil fazer planos. “Nunca sabemos muito bem o dia de amanhã. Em teatro, às vezes sabemos que daqui a um ano e tal vamos fazer uma coisa que é uma loucura”, refere, explicando que entre ter aceitado este desafio e realizá-lo passaram uma gravidez e uma pandemia.

Embora não tenha passado por momentos de aflição reconhece que “a vida de intermitente não é fácil” e é solidária para com os colegas que não podem dizer o mesmo: “Estamos a fingir que está tudo a voltar ao normal, mas não está para muita gente.” Considera “muito revoltante” o estado da cultura em Portugal e alerta para a questão do Estatuto do Intermitente, sobre o qual ainda não há consenso. “Está tudo mal feito. Os recibos verdes não são mesmo feitos para os artistas.”, aponta.

No entanto, apesar das condições precárias e da falta de financiamento do Estado, Benedita Pereira acredita que “há esperança enquanto houver esta paixão e vontade das pessoas em irem ao teatro”. Por isso, a última palavra é um convite ao público para que vá ao São João. “É um desperdício se as pessoas não vierem.”

Texto editado por Bárbara Wong