Caetano Veloso, a ditadura e o jornalista despedido que voltou pela porta grande

Um filme e o El País mostram as falsidades usadas pela ditadura para prender Caetano em 1968.

Quando o jornal O Globo “dispensou” o jornalista e crítico musical Leonardo Lichote, o cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso afirmou no seu mural de Facebook que estava “preocupado com o jornal, com o tratamento da música popular na nossa imprensa e com a liberdade de expressão.” Elogiando Lichote como “um jornalista especializado que realmente ouve música e entende o que está ouvindo” (“coisa rara”, acrescentava), lamentou a sua saída do jornal nestes termos: “Pelo que sei, a demissão dele se deu por desrazões infelizmente frequentes no Brasil de hoje.

Isso foi em Outubro de 2019. Um ano depois, Lichote, que continua activo (mantém no Clube Manouche, do Rio de Janeiro, o projecto Cria, onde entrevista músicos sobre a arte de criar), volta à ribalta pela porta grande, com um extenso artigo no El País (nas edições brasileira e espanhola) sobre, precisamente, Caetano Veloso. E não podia ser mais oportuno, porque o artigo amplia, por acesso directo aos documentos, o impacto do filme Narciso em Férias, que teve estreia mundial no dia 7 de Setembro, na 77.ª edição do Festival de Cinema de Veneza. O título não é inédito: foi usado pelo próprio Caetano no livro Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1997) para nomear um dos capítulos. É ele, aliás, que preenche na íntegra a Parte 3 do livro, relatando precisamente o pesadelo que foi lidar com a detenção e as prisões militares da ditadura, e sem qualquer acusação formada. Começa assim: “O dia já estava nascendo e eu ainda não tinha conseguido dormir quando os agentes da Polícia Federal chegaram para me prender.” E, entre as páginas 347 e 409, Caetano recorda, com minúcia, os passos desse pesadelo. A Companhia das Letras vai reeditá-lo agora, em livro autónomo.

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Caetano Veloso em duas fotos dos relatórios da ditadura, reproduzidas no filme e no El País DR

Porém, à data, ele não tinha lido qualquer relatório oficial relacionado com a sua detenção (e também a de Gilberto Gil, antes de serem ambos forçados ao exílio). Só em Janeiro de 2018, no mesmo ano em que Jair Bolsonaro se insinuava como candidato a Presidente, vindo a ser eleito em 28 de Outubro, é que Caetano teve nas mãos os papéis onde pela primeira vez viu os relatos da sua prisão nas palavras dos carcereiros. E foi isso que serviu de mote ao filme, realizado por Renato Terra e Ricardo Calil e produzido por Paula Lavigne (ex-mulher de Caetano e com ele reconciliada desde 2016), que foi aliás quem teve a ideia.

No filme, que ainda não chegou às salas, mantendo-se em exclusivo na Globoplay, Caetano conta como foi reagindo às imposições dos carcereiros. “Cortaram meu cabelo. Mas eu estava feliz porque não me mataram” (o filme e o El País mostram duas fotos tiradas dos relatórios, com cabelo comprido e já cortado). E reage também à descrição oficial, escrita, dos interrogatórios a que foi sujeito, lendo-a para a câmara: “Perguntado se sabe cantar o Hino Nacional, respondeu que sim. Perguntado se sabe cantar o Hino Nacional com a melodia da Tropicália respondeu que é impossível [risos]. Genial!”

Preso na manhã do dia 27 de Dezembro de 1968, bem cedo, Caetano ficaria encarcerado 54 dias. O que a reportagem de Leonardo Lichote no El País acrescenta ao que ficou para trás (livro e filme, ambos com extensos relatos de Caetano na primeira pessoa) são largos excertos de um “documento oficial de 330 páginas, referentes ao processo que o Estado brasileiro abriu contra Caetano”, alguns dos quais hilariantes. Por exemplo, e logo no início do texto, que um disco de Caetano com a canção Che tinha sido apreendido em 1968 “por fazer propaganda subversiva” ao guerrilheiro da revolução cubana; que ele integrava organizações “de orientação filocomunista” como o Grupo Baiano; ou que ele e Gil parodiaram o hino nacional em “ritmo de Tropicália.” “Nada disso é verdade”, escreve Lichote. Nem disco, nem grupo, nem paródia ao hino. Como se vê, as chamadas “notícias falsas” (designação insensata, porque se são notícias não devem ser falsas e se são falsas não podem ser notícias) já vêm de muito longe. E o Brasil conhece-as bem.

O historiador Lucas Pedretti, que foi, segundo Lichote, quem “descobriu os papéis no Arquivo Nacional em 2018”, diz que “esse caso mostra uma marca do regime ditatorial brasileiro, isto é, abrir um processo legal para realizar uma prisão arbitrária.” E é ele quem alerta, no texto, para um futuro uso destas “informações”, ainda que carregadas de mentiras: “Um dossiê inofensivo em 2020 pode não ser tão inofensivo assim em 2021 ou 2022.” Será o que o futuro nos reserva?