Opinião

Um contributo sincero

O Dr. Rui Rio, sempre que “se mete com o PS, leva”: diminui a sua “capacidade” de intervenção, ajuda a confinar as instituições democráticas e, na verdade, nada consegue mostrar como líder da oposição. Sugiro-lhe, com toda a sinceridade, que faça uma quotização de ideias entre os militantes.

Como se já não fora bastante preocupante a eliminação dos debates quinzenais, aprovada com a bênção do PS e do PSD, agora reduzem-se os debates parlamentares sobre a União Europeia (atualmente ocorrem antes das reuniões do Conselho Europeu) para dois por semestre, sempre com as mesmas bênçãos. E não é lá que as criaturas só queriam um debate semestral? Lindo, em vésperas da presidência portuguesa, no primeiro semestre de 2021.

Como os debates incomodam PS e PSD... receiam, respetivamente, o escrutínio governamental e o escrutínio da oposição.

No primeiro caso, porque o Governo não só não governa (exceto para aumentar impostos e anunciar o que posteriormente não concretiza, para além de generalidades), como a oposição não é oposição, pois nada tem a demonstrar, quer em termos de projetos alternativos, quer em termos de escrutínio do poder executivo.

É por isso que, no fundo, Rio está implicitamente a recomendar o voto no PS. Para quê votar na muleta do poder? Se Rio pensasse um minuto (é pedir muito) veria com nitidez a pandemia que paralisa meio país associada à crise económica e social que já está patente; veria a agressividade e a criminalidade que crescem; veria certos sinais, nas manifestações de populismo que têm proliferado, muito semelhantes aos do famigerado PREC; veria um candidato presidencial a convidar um juiz para ser seu mandatário e uma diplomata a convidar Paulo Pedroso para o mesmo e dito efeito (e que o desgraçado aceitou).

A muleta Rio também foi muito útil nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR): se é certo que no dia 13 de Outubro se realizará uma espécie de eleição para a escolha dos presidentes das CCDR, a verdade é que as escolhas foram previamente acordadas entre o PS e o PSD, com uma ilustre exceção, que veremos se consegue romper a barreira do confinamento eleitoral.

Ou seja, mais uma governamentalização institucional. As eleições serão a mera formalização de uma escolha ditada à partida. Não serão eleições, mas sim ratificações: as listas serão únicas em quatro das cinco CCDR. O PS indicou quatro presidentes e o PSD um (a competentíssima Isabel Damasceno, que por agora até já ocupa a presidência da Comissão Centro, onde tem feito um ótimo lugar e que se vai recandidatar). Ou seja, em boa verdade, Rio não indicou ninguém…

Bela partilha, que não só é pouco ética mas que, como de costume, não lhe corre nada bem.

O Dr. Rui Rio, sempre que “se mete com o PS, leva”: diminui a sua “capacidade” de intervenção, ajuda a confinar as instituições democráticas e, na verdade, nada consegue mostrar como líder da oposição. Pobre, pobre Dr. Rui Rio, que ao desbaratar as suas heranças, anda mesmo pobre, sobretudo de ideias. Sugiro, com toda a sinceridade, que faça uma quotização de ideias entre os militantes. E não estou naturalmente a falar daqueles que, entretanto, deixaram de o ser e arribaram a outros partidos. É uma sugestão que não é proibida por lei, garanto.

Aqui fica uma: não deixe crescer extremos à esquerda e à direita – não, não pense na sua extrema boa-fé que os votos do PSD só se deslocam para a direita, bastando consultar os resultados das últimas eleições. Peço-lhe encarecidamente que o faça, porque no mínimo já não se atura tanta cacofonia e os danos imensos que os extremos causam ao país. Parecem ser coisa pouca e nem lhe merecem combate, que este tem os seus perigos, não é? O melhor é também não pensar no que pode aí vir externamente: que a Casa Branca possa explodir, que a guerra entre o Azerbaijão e a Arménia, ou as sombras do conflito turco-grego, possam levar a uma perigosa desestabilização de áreas geográficas em que a Europa tem interesses fundamentais; que os migrantes... e muito menos no que pode resultar da “guerra meio fria” entre os EUA e a China. Estes últimos são assuntos para o ministro dos Negócios Estrangeiros, que por sinal não se saiu nada mal, não lhe parece?

Importante, mais importante do que tudo, é a contabilidade, não é Dr. Rui Rio? Sem a contabilidade não há nada, mesmo nadinha que se possa fazer. Ponto é que seja boa...

Mas que será de nós se não mantiver a sua tão fina postura (tão fina, tão fina, que não se vê), mas é tudo desinformação. Será que iremos todos parar ao caldeirão do Rio Ratão?

Nestes tempos conturbados é melhor ganharmos algum humor, mesmo que saiba a amargo e vá alinhado com lágrimas secas.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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