Não às praxes!

A praxe está caduca, mas não está morta. Resquício dos tempos da outra senhora, não é senão o exercício cobarde de poder de veteranos sobre caloiros, sob a égide de uma suposta tradição a qual insiste em não rimar com inclusão ou aceitação, quando a agressão gratuita é o verbo dominante.

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Adriano Miranda / PUBLICO

Deitada na praia, coberta de areia e apenas com a cabeça de fora, durante uma praxe uma caloira foi obrigada a ingerir álcool ao ponto de entrar em coma, sendo assistida no hospital de Faro.

Dois caloiros foram levados a meio da noite por um grupo de veteranos para o meio da Serra da Estrela. Escondidos nas capas do traje académico, os caloiros não sabiam onde estavam mas, sabiam, estavam à mercê dos veteranos. Ali, no meio do nada, foram obrigados a despir-se e a responder a uma série de perguntas. Por cada resposta errada, uma agressão. E se calhava serem caloiras, fotografavam-nas nuas para partilha num grupo privado.

Em Coimbra, e a troco de shots, as caloiras eram obrigadas a uma série de práticas de teor sexual, desde encontrar alguém para lhes morder o rabo, beijar uma amiga ou a fazer um strip no palco sem se esquecerem de mostrar o peito.

Em Famalicão, um membro da tuna morreu na sequência de agressões numa praxe, sendo obrigado a fazer flexões e posteriormente atingido na nuca com uma revista. Resultado: fractura da primeira vértebra cervical com hematoma extenso no cerebelo direito. 

No Colégio Militar, em Lisboa, três caloiros foram vítimas de agressões ao ponto de deixar um deles com um tímpano furado e outro numa cadeira de rodas durante um mês.

Um grupo de caloiros de Coimbra, outra vez Coimbra, foram obrigados a atar o pénis a um cordel amarrado a um tijolo, tijolo esse seguro nas mãos. Cada caloiro foi levado de olhos vendados para umas escadas, de onde foram obrigados a atirar o tijolo entre o desespero e o medo enquanto um veterano cortava o cordel. Não contentes, os veteranos colocaram o próprio pénis num copo de água, água essa ingerida pelos caloiros.

Em Santarém, uma aluna foi praxada com esterco de porco na cara. Insultada e impedida de usar o telemóvel, foi abandonada a vários quilómetros de casa.

Em Oeiras, 11 caloiros simularam um assalto a um banco como parte de uma praxe.

Em Leiria, um aluno do primeiro ano sofreu uma ruptura de um aneurisma cerebral depois de uma praxe académica que culminou com o “baptismo” na Fonte Luminosa. 

Em Beja, uma estudante entrou em paragem respiratória durante uma praxe. Internada nos cuidados intensivos, nunca chegou a recuperar, acabando por morrer um ano depois e deixando uma filha de quatro anos.

Será preciso continuar? Continuar a amealhar, ano após ano, histórias de violência e sofrimento? Em nome da tradição? Qual tradição, quando pela mesma se perdem vidas? As vidas dos que partem, as vidas dos que ficam.

Por isso esta mensagem, ano após ano repetida à exaustão até que a última universidade e o último politécnico deixem de permitir as praxes e a violência sobre gerações e gerações de alunos.

Jovem, diz não à praxe, diz não à subjugação, aos insultos, à tinta e perfumes baratos nos cabelos, na roupa e pele, diz não a andar de gatas ou a fazer as vezes de carrinho de mão enquanto atravessas o Campo Grande em hora de ponta, diz não ao mergulho nas fontes das cidades apenas porque sim, porque é o baptismo e todos os dias é o baptismo, diz não aos vídeos em roupa interior ou sem roupa só porque é para o TikTok, o Insta ou o Snapchat, e não, o vídeo não desaparece, diz não a tirar as roupas, não à violação da intimidade, a vergonha e a culpa depois da verdadeira violação, eram três veteranos e o que podias tu fazer.

A praxe é bullying, é intimidação, é uma ameaça à integridade física e psicológica, é crime, inadmissível, inaceitável, desnecessária, supérflua, dispensável, é a não-aceitação do outro, é discriminação, é misoginia, é homofobia.

A praxe está caduca, mas não está morta. Resquício dos tempos da outra senhora, não é senão o exercício cobarde de poder de veteranos sobre caloiros, sob a égide de uma suposta tradição a qual insiste em não rimar com inclusão ou aceitação, quando a agressão gratuita é o verbo dominante.

A praxe é medo, sempre foi, medo de quem ainda agora chegou e não conhece os cantos à casa, nem os cantos nem os colegas. Desunidos, os caloiros serão sempre presa fácil da inclemência de veteranos sedentos de vingança, eles próprios vítimas de praxes passadas e agora de rédeas na mão.

E desenganem-se se pensam ser este o meio e o modo para encontrarem o vosso lugar no ensino superior. Não é, os veteranos não querem saber de vermes, os vermes andam de joelhos, os vermes rastejam, rasteja caloiro e anda uma família a criar um filho e uma filha para isto, para que a brutidade tome conta do destino.

Acabemos com as praxes. De uma vez por todas, por favor, acabemos com as praxes. E se as mesmas já estão proibidas no Porto e em Lisboa, a Universidade de Coimbra não as proíbe, assegurando que as mesmas respeitam as orientações da Direcção-Geral da Saúde e procurando garantir o continuar de uma tradição há muito suja de sangue. E, assim sendo, é uma questão de tempo até a ignorância abrir os telejornais.