Desmascarados

Nas escolas – reiteradamente consideradas pelo Ministério da Educação lugares seguros –, onde é bem sabido ter-se procurado fazer o melhor trabalho possível para conter a violência pandémica, reina uma paradoxal moralidade sem autoridade.

Estamos já na segunda vaga? Ela vem a caminho? Estamos na crise pandémica e vêm aí problemas de vária ordem, incluindo a ameaça às contas públicas. Não há como evitá-los. Nem o pessimismo radical nem o optimismo ilusionista e cândido conseguem enquadrar aquela que será, por enquanto, a maior provação mundial do século XXI. O narcisismo, por outro lado, não serve nem ao próprio.

Na escala de erros acumulados ao longo das últimas décadas, com o desprestígio da classe docente (entre outras), a desvalorização do papel dos progenitores e o crescente proteccionismo para com crianças e jovens, cabe ainda a asfixia do pensamento, intoxicado por toda a ordem de pruridos com que se fala à narcísica gente jovem. Façam o que fizerem, os jovens têm sempre razão. Mesmo que arruínem o espaço público.

Nas escolas – reiteradamente consideradas pelo Ministério da Educação lugares seguros –, onde é bem sabido ter-se procurado fazer o melhor trabalho possível para conter a violência pandémica, reina uma paradoxal moralidade sem autoridade. Por mais que se circule desta ou daquela maneira, que no espaço de aula seja obrigatória a máscara, que se tenham mil e um cuidados e haja quem esteja determinado em fazer respeitar regras sanitárias, ultrapassada a linha que separa o espaço escolar da rua, os “erros técnicos” exteriores sobrepõem-se: alunos convivem sem limite de distância física, retiram a máscara, não evitam o contacto físico, e comportam-se como bombeiros pirómanos. Os repetidos avisos caem, como se sabe, em saco roto. Isto é, a escola parece uma coisa, mas é outra.

O Ministério da Educação tem, portanto, razão: as escolas são seguras. A rua é que não. Ora, acontece que nem todos os alunos dão provas de irresponsabilidade. Muitos, incapazes de se defenderem da leviandade alheia, sabem que o vírus actua por desatenção e complacência. Mesmo vigilantes – vítimas, quem sabe, da mofa de outros colegas –, esses alunos, o pessoal auxiliar e docente não serão capazes de conter aquilo que alguém disse já poder vir a explodir como bomba antes do Natal. Quando for necessário suspender turmas, veremos a extensão do desastre.

Dizia um cronista, “tal como o doente mental não é responsável pela loucura social”, um aluno ou um professor não são responsáveis pela comunidade escolar. A coisa só funciona se todos, sem excepção, remarem para o mesmo lado. Entretanto, como isso não acontece (porque não fomos educados espartanamente e o modismo resiliência é uma miragem), seria bom que Ministério da Educação e Ministério da Administração Interna se articulassem de imediato e concebessem soluções expeditas, traduzidas em regras e leis claras, punindo severamente o seu incumprimento. As normas são sempre uma chatice, mas sem elas (numa matéria de vida ou de morte) o mundo seria ainda pior. A displicência de alguns jovens (explicável pela sua natureza leviana e a coberto do seu grau de imunidade, no duplo sentido do termo) é um insulto e uma agressão à comunidade escolar. Não haverá ninguém disposto a insultar o insulto? Há razões para isso. O vírus não dorme.

Disse-me um colega, há dias, com graça: “ainda haverá quem se venha a rir desta situação: quer dizer, quem sobreviver, claro!”.