Ajudar os jovens a prepararem-se para a incerteza

Os professores que são eles próprios aprendizes relativamente ao modo como influenciam as aprendizagens dos seus alunos, são também os que conseguem ser mais influentes.

Foto
"As escolas preparam jovens para a vida, nas suas múltiplas vertentes." Nelson Garrido

Há umas semanas recebi o convite para uma entrevista em que me foi colocada a questão: Quais são os principais desafios da educação? Lembro-me de ter respondido que essa era a pergunta para um milhão de dólares. E é! Muito há a dizer sobre o assunto, que não caberá apenas num artigo de opinião.

Considero que o principal desafio é lidar e ajudar os jovens a prepararem-se para a incerteza. Com o novo ano letivo, em plena crise pandémica, a incerteza é mesmo o que temos de mais certo. Contudo, esta preparação para lidar com a incerteza nos mais jovens, já é algo que deverá fazer parte do ADN das comunidades educativas e que vai muitíssimo além do momento atual em que vivemos.

De acordo com o Fórum Económico Mundial, em 2030, 75% das profissões mais procuradas ainda são hoje inexistentes. Só quem anda distraído é que ainda não vislumbrou que a incerteza já por cá criou raízes há muito tempo. As escolas preparam jovens para a vida, nas suas múltiplas vertentes. Se a preparação para lidar com a incerteza deve ser um dos focos, como poderá isso ser feito? A resposta a esta pergunta remete para uma outra, de não somenos importância, e que é saber o que funcionará melhor em termos de sucesso educativo. Quais são os fatores que mais contribuem para as aprendizagens de forma generalizada?

Hattie (2009) sintetizou num livro o que a investigação nos diz a este respeito. Não é um estudo único, nem sequer uma metaanálise agregando alguns estudos. Este livro sintetiza, nada mais, nada menos, que cerca de 800 estudos de metaanálises que procuraram responder a esta questão. O resultado a que chegou foi a de que o fator que isoladamente mais contribui para as aprendizagens são os professores (35%). A conclusão óbvia é: os professores são importantes e fazem a diferença! Naturalmente há muitos outros fatores, responsáveis pelos restantes 65%, mas hoje debruço-me sobre este em particular.

A aprendizagem é um caminho muito pessoal feito pelo professor/a e pelo aluno/a, com pontos em comum nesta jornada. A aprendizagem nem sempre é fácil, nem prazerosa e implica investimento! Também requer um compromisso com a procura de desafios futuros, de novas aprendizagens, num ambiente de incerteza. Quanto maior for o desafio para o/a aluno/a, maior é também a sua necessidade de feedback por parte do/a professor/a, sendo estes dois dos principais ingredientes para uma aprendizagem eficaz.

Qual é então a melhor via para partilhar esse feedback com os alunos? Beneficiando de treino sobre a melhor forma de o fazer e ainda usufruindo de feedback sobre a sua própria prática enquanto professor/a. Os professores que são eles próprios aprendizes relativamente ao modo como influenciam as aprendizagens dos seus alunos, são também os que conseguem ser mais influentes.

A Fundação Bill e Melinda Gates financiou um programa nos EUA destinado a ajudar os professores a melhorar as suas competências, através da observação de gravações das suas próprias aulas, entre outras componentes. Depois de analisadas pelos mesmos, algumas dessas gravações foram selecionadas por cada professor/a e submetidas à apreciação de pares, beneficiando de feedback relativamente a pontos específicos.

Quando se tem uma das profissões mais importantes do mundo é importante receber-se este feedback específico, porque há muita variabilidade na forma como cada professor/a ensina e, consequentemente, na forma como os alunos aprendem. Ao não o fazermos, estamos a falhar em dar aos professores a ajuda que precisam para melhorar as suas competências. E a consequência disso reflete-se na aprendizagem dos seus alunos. Na aprendizagem que precisam de fazer, para serem bem-sucedidos num mundo recheado de incertezas.

Pode um professor/a fazer a diferença perante a incerteza e volatilidade reinante? A investigação mostra-nos que sim. Já dizia um provérbio africano: “Se pensas que és demasiado pequeno para fazeres a diferença tenta dormir com um mosquito.” Mas, também precisamos de ajudar os professores a desenvolverem as competências necessárias para que possam melhorar o apoio que prestam aos seus alunos.