Das despesas com cabelo à consultoria de Ivanka, o que revelam as declarações fiscais de Trump?

Despesas pessoais tidas como despesas empresariais (onde se inclui o cabelo e a maquilhagem) e os serviços de consultoria da filha do magnata (no valor de milhares de dólares). O que dizem as declarações de impostos de Trump reveladas pelo The New York Times? Que talvez não seja o empresário de sucesso que apregoa e que evita pagar impostos.

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Não pagar impostos “faz de mim esperto”, disse Trump em 2016 Tom Brenner/Reuters

No ano em que ganhou a Presidência, Donald Trump pagou apenas 750 dólares em impostos federais. Após um ano na Presidência dos Estados Unidos, pagou outros 750. E, em dez dos últimos 15 anos, não pagou um só dólar em impostos. As revelações foram feitas este domingo pelo diário norte-americano The New York Times, que obteve documentação fiscal relativa às últimas duas décadas – não só de Trump mas também das centenas de empresas que detém em nome da Organização Trump. 

É a primeira vez que se conhecem as declarações de impostos de Trump

É a primeira vez que se conhece o conteúdo desta documentação, obtida através de fontes com acesso legal a elas. Desde os anos 70 que todos os Presidentes norte-americanos têm tornado as suas declarações de impostos públicas de forma voluntária. A excepção foi Donald Trump, alegando que estão a ser auditadas pela autoridade fiscal do país, o IRS.

A quase totalidade dos documentos fiscais obtidos foi revista pela equipa do The New York Times e diz respeito às contribuições de Trump quer a nível individual, quer das centenas de empresas que tem em seu nome (excepto a informação pessoal dos anos 2018 e 2019). E a história que contam é bastante diferente da narrativa que a administração Trump se tem esforçado por transmitir ao longo dos últimos anos. Afinal, Trump não é um homem de negócios de sucesso: pelo contrário, chegou a receber um reembolso de milhões de dólares pelas “perdas avultadas” declaradas.

O diário norte-americano titula que os impostos de Trump “mostram perdas crónicas e anos de elisão fiscal”, a utilização de instrumentos legais para pagar a menor quantidade de impostos possível.

Negócios com perdas de milhões

Em 2016, gabava-se do facto de não pagar impostos. “Faz de mim esperto”, referiu, durante um debate presidencial contra Hillary Clinton. No mesmo ano, disse à Associated Press que “não há nada de útil” nas suas declarações fiscais – e que seria melhor olhar para as declarações financeiras anuais que tem de entregar enquanto Presidente dos EUA. O problema é que esses documentos não contam a história toda: aos lucros de vários milhões de dólares, falta deduzir as perdas de milhões que enfrenta todos os anos.

De acordo com o The New York Times, apesar de os seus negócios gerarem muito dinheiro, as perdas que o Presidente e as suas empresas registam todos os anos fazem com que o saldo esteja longe de ser positivo. E isso faz, também, com que as suas contribuições sejam escassas.

De facto, a sua aposta no imobiliário tem estado longe de dar lucro. Todos os campos de golfe que tem fora dos EUA – dois na Escócia e um na Irlanda – tiveram perdas combinadas de 63,6 milhões de dólares. Desde 2000, nos campos de golfe dos EUA, Trump registou perdas de 315,6 milhões de dólares. Num dos seus hotéis, em Washington, que abriu em 2016, as contas também estão no vermelho: até 2018, tinha perdido 55,5 milhões de dólares.

Empréstimos por pagar – e a auditoria do fisco

The New York Times noticia ainda que Trump deve cerca de 300 milhões de dólares de empréstimos que vencem nos próximos quatro anos. E que, logo após o sucesso inicial do programa de televisão O Aprendiz, que apresentou, pagou muito mais em impostos do que actualmente – valores que lhe foram reembolsados quase na totalidade. Dos impostos sobre o rendimento que pagou ao longo de 18 anos recuperou a maior parte, com juros, solicitando e recebendo um reembolso de 72,9 milhões de dólares, com início em 2010.

Agora, o actual Presidente dos EUA arrisca-se ainda a perder “mais de 100 milhões de dólares” em caso de desfecho negativo de uma auditoria do fisco em curso devido aos quase 73 milhões de dólares que poderá ter requerido de forma fraudulenta. 

Quanto vale a sua imagem?

A fatia mais rentável dos negócios de Trump tem sido a venda da sua imagem. De acordo com a investigação do The New York Times, entre 2004 e 2018, Trump somou um total de 427,4 milhões de dólares com a venda da sua imagem e com a parte que detém dos direitos d’O Aprendiz. Estas terão, porventura, sido duas das suas apostas de maior sucesso.

Há empresas de imobiliário a pagar direitos pela utilização do nome Trump. E o programa O Aprendiz também elevou o valor da sua marca pessoal pelo sucesso que teve. Mas, apesar das somas que conseguiu com a venda dos direitos de utilização do seu nome, as perdas continuaram a ser superiores. A Organização Trump – que soma mais de 500 entidades, todas elas detidas quase na totalidade por Donald Trump – utilizou habilmente as perdas milionárias que sofria para compensar os lucros que conseguia noutras áreas (como a venda do seu nome).

As despesas com cabeleireiro e maquilhagem

Outra estratégia utilizada pelo magnata consistia em declarar algumas despesas pessoais como despesas empresariais. Aqui, incluem-se despesas com aviões particulares, contas de cabeleireiros – que, no tempo d’O Aprendiz, chegaram a 70.000 dólares – ou uma conta de quase 100.000 dólares pagos à cabeleireira e à maquilhadora favorita de Ivanka Trump.

Também uma propriedade que a família detém em Nova Iorque (e que foi descrita pela Organização Trump como uma casa de férias) foi declarada como sendo uma “propriedade de investimento”, o que cortou vários milhares de euros em impostos.

E os serviços de consultoria da filha

Ao longo dos documentos revistos pela equipa do jornal aparecem alguns pagamentos avultados cujos receptores não são nomeados. A explicação poderia remeter para subornos, mas, na verdade, parece ser bem mais simples: Trump terá pago a membros da sua família por serviços de consultoria, encarando esses pagamentos como uma despesa empresarial. Pode ter sido o que aconteceu com Ivanka Trump – que não é formalmente nomeada, tal como nenhum dos seus consultores. O jornal chegou até ao seu nome depois de comparar os valores gastos em consultoria com os valores obtidos pela filha de Trump, de acordo com as declarações financeiras que apresentou desde que começou a trabalhar para a Casa Branca em 2017 (enquanto conselheira do Presidente).

Ivanka recebeu pagamentos de uma empresa de consultoria da qual era co-proprietária, num total de 747,622 dólares – o que coincidia com uma das despesas em consultoria referida pela Organização Trump para um projecto hoteleiro em Vancôver e no Havai.

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