Xi Jinping: o que a China faz aos uigures é “correcto” e vai continuar “muito tempo”

O impacto das denúncias internacionais de que a China está a construir mais campos de detenção da minoria muçulmana de Xinjiang não afligem o Presidente chinês que defendeu a sua continuação porque são um “sucesso que a realidade demonstra”.

Uma bandeira chinesa junto à antiga mesquita de Id Kah, na cidade velha de Kashgar, em Xinjiang
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Uma bandeira chinesa junto à antiga mesquita de Id Kah, na cidade velha de Kashgar, em Xinjiang Reuters/THOMAS PETER

A China vai prosseguir o seu processo de reeducação à força da minoria uigure da província de Xinjiang. Isso mesmo disse o Presidente chinês, Xi Jinping, durante uma reunião de alto nível do Partido Comunista Chinês PCC) dedicada à análise da região ocidental do país. Para o líder chinês, as políticas do PCC em Xinjiang são “completamente correctas e devem ser levadas a cabo durante muito tempo”.

Dias depois do Instituto Australiano de Políticas Estratégicas (ASPI) ter denunciado que a China construiu 380 campos de detenção para os uigures (61 construídos entre Julho de 2019 e Julho deste ano), a que chama de “reeducação”, na província de Xinjiang, por onde estão ou já estiveram um milhão de uigures e membros de outras minorias muçulmanas do país, o Presidente da China diz que a acção do Governo é “um sucesso que a realidade demonstra”.

Apesar das informações divulgadas pelas organizações de direitos humanos e das críticas internacionais, o chefe de Estado chinês não quer mudar a política, antes pretende prolongá-la por muitos anos, até conseguir apagar a identidade uigur e impedir o crescimento de qualquer veleidade de luta religiosa na província ocidental.

Os campos de “reeducação” chineses (Pequim continua a chamar-lhes centros de reeducação, onde voluntários assistem a cursos de formação vocacional) visam doutrinar a minoria muçulmana com os ensinamentos do partido, a sujeição de todos e cada um à vontade do Governo e do partido e a imposição da cultura han maioritária (cerca de 92% da população da China).

Os comentários de Xi no III Simpósio Central sobre o Trabalho em Xinjiang são uma garantia para as autoridades locais de que apesar das críticas internacionais podem seguir com as actuais práticas.

“O partido no seu todo deve encarar a implementação das nossas políticas em Xinjiang como uma tarefa política que deve ser realizada de forma precisa e na sua totalidade, para garantir que Xinjiang seguirá sempre a direcção política correcta”, afirmou Xi Jinping, em declarações gravadas pelo canal público de televisão CCTV, citadas pelo South China Morning Post.

Para o Presidente chinês, o facto de os indicativos económicos da província, desde o segundo simpósio em 2014, demonstrarem um crescimento económico significativo, o aumento dos padrões de vida locais e uma melhor protecção ambiental é um sinal de que a política aplicada pelo PCC está a funcionar.

Xi aproveitou para sublinhar que “o Estado de direito socialista” deve ser aplicado em Xinjiang para manter a estabilidade na província. E, nesse aspecto, reforçou o objectivo da reeducação aplicada aos uigures (que são mais de 10 milhões), aos chineses de origem cazaque e a outras minorias muçulmanas: um trabalho ideológico que visa promover a identidade chinesa (eufemismo para identidade han) e uma forma de islamismo à moda da China, ou seja, uma religião sempre sujeita aos ditames do partido.

Natalidade a descer

Além de torturas, detenções arbitrárias e doutrinação, as acusações contra a política chinesa em Xinjiang incluem a esterilização contra vontade das mulheres nos campos de “reeducação”. Acusações sempre negadas por Pequim, que desmente essa prática que pode ser vista como um crime de genocídio.

No entanto, o Governo de Pequim, em resposta a perguntas feitas pela CNN, reconheceu a existência de uma queda abrupta na taxa de natalidade em Xinjiang nos últimos anos – só entre 2017 e 2018, o número de nascimentos na província caiu um terço –, embora continue a negar que tal se deva a qualquer prática de planeamento familiar ou esterilização forçadas das mulheres uigures.

A CNN cita o trabalho de investigação em Xinjiang de Adrian Zenz, da Victims of Communism Memorial Foundation, que fala em documentos oficiais chineses que referem o aumento de esterilizações em Xinjiang, de menos de 50 por 100 mil habitantes em 2016 para quase 250 por 100 mil habitantes em 2018.

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