Editorial

Tratem de discutir política a sério

Concordando ou discordando do papel quase messiânico que o Governo atribui ao estado como agente promotor da recuperação até na economia, concordando ou não com o PSD que acusa a estratégia de António Costa de desproteger a economia privada, não é aceitável que estas discussões importantes se desperdicem em guerrilhas.

Há dias em que os deputados decidem abdicar do seu sentido de responsabilidade e se limitam a agir como meninos no recreio a discutir de quem é a bola. E há momentos em que quem governa o país, em vez de contrariar o rumo da brincadeira e impor ordem no jogo, prefere alimentar a disputa. Esta quarta-feira foi assim na Assembleia da República.

Em vez de discutirem a substância das prioridades para o país do Plano de Resiliência e Recuperação que foi concebido para projectar o futuro, os deputados mais à esquerda insistiram na cassete da política do quotidiano, os parlamentares mais à direita desertaram do campo das ideias e regressaram aos tempos de José Sócrates e os representantes do Governo foram incapazes de se poupar a esse primarismo argumentativo e regressaram ao estafado exemplo de Passos Coelho. Uma tarde perdida.

Foi pena porque a grande questão que o país deve estar a discutir está já em cima da mesa. Ou seja, a de saber se o país que queremos no futuro passa pelo reforço do papel do Estado na economia e na sociedade ou se, pelo contrário, tem de haver uma atribuição maior de responsabilidades ao sector privado e aos cidadãos.

Se todos estamos de acordo sobre a necessidade de haver uma etapa intermédia neste processo que garanta a “resiliência” do país aos efeitos da crise, reforçando as competências do estado em áreas críticas como o SNS ou a protecção social, gerindo o desemprego, as falências ou as falhas dos serviços públicos, também temos de concordar que a etapa a seguir, a da recuperação, o que está em causa é o modelo de país que teremos no futuro.

Concordando ou discordando do papel quase messiânico que o Governo atribui ao Estado como agente promotor da recuperação até na economia, concordando ou não com o PSD que acusa a estratégia de António Costa de desproteger a economia privada, não é aceitável que estas discussões importantes se desperdicem em guerrilhas.

Não faz sentido que o Bloco, o PCP ou o CDS confundam as reivindicações que cabem num Orçamento do Estado com ideias de país para um horizonte de uma década. Não é aceitável que o PSD vá ao plenário sem ideias para opor ao Governo. Nem admissível que o Governo que quer um consenso alargado (e bem) sobre o Plano se deixe cair nessa irritante quezília que atesta com o recurso a Passos e a Sócrates uma obsessão pelo ajuste de contas que nenhum português sensato entende.

Mantendo este nível de política politiqueira, só se pode chegar onde esta quarta-feira se chegou em São Bento: a lado absolutamente nenhum.

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