Adriano Miranda
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Adriano Miranda

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A praia dos outros

Lugares de fronteira como praias, onde a terra se esfarela lentamente para poder temperar o mar, parecem-me muito mais interessantes durante o mistério do Inverno ou entre as sombras do nascer e do pôr-do-sol.

Não sei quem decidiu que praia era sinónimo de Verão, férias, bronzeados, notícias tolas e bolas-de-berlim, mas espero que esteja no inferno.

Juro que não desejo nenhum mal a essa pessoa, mas presumo que alguém que aprecia calor extremo combinado com escaldões, gordura frita e informação inútil certamente se sentiria nas suas sete quintas naquele domínio do sobrenatural.

Lugares de fronteira como praias, onde a terra se esfarela lentamente para poder temperar o mar, parecem-me muito mais interessantes durante o mistério do Inverno ou entre as sombras do nascer e do pôr-do-sol.

Ainda recentemente estive numa praia ao amanhecer e deparei-me com um grupo de pescadores em plena actividade. O trabalho era mais prosa neo-realista do que poesia: depois de uma volta nocturna de barco a motor, para lançar metros e metros de rede, tinham voltado ao areal para a recolher, usando tractores e motores eléctricos para puxar as cordas. Era uma tarefa lenta e paciente como já não se usa, feita do silêncio de cigarros. Eram quase todos homens, com um bronze de empalidecer o mais militante frequentador de solários, e quase nenhum tinha menos de 50 anos. A pesca, sentenciou-me um dia outro pescador, é impossível para quem possua um smartphone ou já tenha ido a uma discoteca. E aquele aglomerado na praia matinal parecia confirmar que a solidão do mar é inimiga do burburinho do mundo.

Mas é engano imaginar que na praia só houvesse pescadores — há gente em todos os lugares da Terra, mas aquilo que as pessoas fazem é sempre mais interessante quanto menor for o seu número. Aos pescadores ia-se juntando uma pequena multidão armada de baldes, cães, telemóveis e máquinas fotográficas, e ainda uma massa de gaivotas impacientes pela chegada das redes.

E estas chegaram, debruadas de carapaus e cavalas pequenas, cujas cabeças de grandes olhos estremeciam entre as redes e as bocas estrebuchavam ritmicamente, no que seria uma visão pitoresca, se não fossem seres vivos em agonia.

Com o abrir das redes, de imediato os pescadores se dobraram sobre elas, afastando as algas e apanhando metodicamente os peixes, que atiravam para tabuleiros, enquanto a multidão em redor agarrava caranguejos e camarões, pegava em punhados de algas ou simplesmente aproveitava a fotogenia das raias e dos robalos, enquanto as gaivotas em redor lutavam pelos restos de peixes e de caranguejos.

Quando as redes ficaram vazias de vida por respigar, a multidão de veraneantes começou finalmente a afastar-se, de volta aos toldos e esplanadas com algo para contar. E os pescadores partiram para a lota, onde venderam a safra do dia a peixeiras, supermercados e restaurantes, onde aquela se tornaria uma iguaria cara e apetecível.

Tendo terminado o seu dia de trabalho matinal, perguntei finalmente a um dos pescadores que se tinham demorado, quanto lhe renderia o esforço: as horas de andar na noite pelo mar incerto, o recolher das cordas e redes, as costas dobradas a colher o peixe, o reparar das redes e do barco. Depende de quanto o peixe valer na lota, disse ele, alisando o cabelo grisalho debaixo do boné. Naquele dia não tinha sido mau, acrescentou, talvez uns três, cinco euros, ao todo.

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