Starmer assume que o Labour “mereceu” perder as últimas eleições britânicas

Líder trabalhista discursou no encerramento do congresso virtual do partido e piscou o olho aos eleitores do Norte e Centro de Inglaterra, perdidos para os conservadores à custa do “Brexit”. “Não está à altura do cargo”, disse sobre Johnson.

Foto
Keir Starmer, líder do Partido Trabalhista Reuters/POOL

O líder trabalhista britânico, Keir Starmer, assumiu esta terça-feira que Labour “mereceu” perder as últimas eleições legislativas no Reino Unido, em Dezembro do ano passado, para o Partido Conservador.

No discurso de encerramento do congresso virtual do Partido Trabalhista, no qual insistiu na ideia de que representa uma “nova liderança”, Starmer pediu especialmente aos eleitores perdidos para os tories nos antigos bastiões operários trabalhistas para darem uma nova oportunidade ao partido de centro-esquerda.

“Sejamos brutalmente honestos connosco próprios: quando se perde uma eleição em democracia, é porque é merecido. Não se olha para o eleitorado e pergunta-se: ‘Em que é que estavam a pensar?’ Olha-se para dentro e pergunta-se: ‘O que é que estivemos a fazer?’”, reflectiu o sucessor de Jeremy Corbyn, cuja direcção guiou o partido ao pior resultado em legislativas desde 1935.

“O Labour nunca mais poderá apresentar-se a uma eleição sem ser confiável sobre a segurança nacional, sobre o vosso emprego, a vossa comunidade ou o vosso dinheiro. É isto que que significa ter uma nova liderança”, disse Keir Starmer, que insistiu na ideia de que o partido deve ser uma “oposição credível e competente”.

Apesar das críticas, mais ou menos directas, à anterior liderança trabalhista – à qual não é totalmente alheio, uma vez que desempenhou o importante cargo de “ministro-sombra” do “Brexit” – Starmer responsabilizou, no entanto, o partido como um todo pelos sucessivos fracassos eleitorais dos últimos anos.

“O Partido Trabalhista perdeu quatro eleições legislativas consecutivas. Oferecemos uma década de poder aos tories. Os tories tiveram tantos vencedores eleitorais em cinco anos como nós em 75. Deixar que isto continue é uma traição àquilo que acreditamos. Chegou a hora de sermos sérios em relação a vencermos [umas eleições]”, afirmou.

Um dos factores decisivos para o descalabro do Partido Trabalhista no final do ano passado foi a perda, para os conservadores, de vários círculos eleitorais operários e pró-“Brexit”, no Centro e Norte de Inglaterra. Muitos deles votavam no Labour há várias décadas, mas mudaram para os tories por causa da inconsistência da mensagem de Corbyn sobre a questão europeia.

Consciente de que só pode aspirar a uma vitória eleitoral no futuro se conseguir recuperar esses círculos do chamado “red wall” (“muro vermelho”), Keir Starmer dedicou-lhes várias linhas do seu discurso, com referências ao seu patriotismo e ao orgulho na família, numa tendência que tem vindo a seguir desde que foi eleito para a liderança do partido em Abril.

“Quero que este [Reino Unido] seja o melhor país para se crescer e o melhor país para se envelhecer”, afirmou.

Para além disso, Starmer mostrou-se decidido a virar a página sobre o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, cuja novela está agora focada na controversa proposta de lei do Governo que propõe eliminar algumas partes do acordo negociado e ratificado com os 27.

O Labour “não será um partido que vai continuar fazer alarido por causa da Europa”, garantiu Starmer. “O primeiro-ministro já nos prometeu várias vezes um acordo. Que avance e que o consiga trazer”.

O líder trabalhista lançou ainda duras críticas à gestão do Governo conservador à crise pandémica e ao próprio primeiro-ministro, Boris Johnson.

“As crises revelam o carácter [das pessoas] e não o seu contrário. Ele [Johnson] não é sério. Não está à altura do cargo. Sempre que enfrenta um problema, Johnson afasta-o ou ataca-o”, denunciou Keir Starmer.

Nove meses depois de terem sido arrasados pelo Partido Conservador e cinco meses depois de terem uma desvantagem de 26 pontos percentuais para os tories, os trabalhistas igualaram o partido de Johnson há poucas semanas nas sondagens. Estão ambos empatados com cerca de 40% das intenções de voto.