Crónica

Dia sem carros, dia da justiça social

Por motivações várias (algumas razoáveis, outras não), mesmo em circuitos urbanos os portugueses aprenderam a confundir mobilidade com um automóvel e liberdade com número de vias de trânsito e limites generosos de velocidade.

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Vi-o passar na ciclovia. Sentado numa esplanada, a cada parágrafo de um livro que nos impele a usarmos a imaginação para vencermos, à escala urbana, alguns desafios da crise climática, os meus olhos erguiam-se e perdiam-se no horizonte, visualizando futuros possíveis, quando ele passou. Não sei o nome dele, que deficiência tem, mas, tomado por uma hiperconsciência da minha própria fragilidade física, após 46 anos com uma paralisia parcial dos membros esquerdos, imaginei-me, num futuro plausível, naquela e-scooter, passeando lentamente em frente ao mar, com a liberdade possível.

Há uns 16 anos, celebrei a aquisição do meu primeiro carro, adaptado à minha condição, como quem celebra, precisamente, a liberdade: a liberdade individual de chegar mais longe, mais rápido; a liberdade de ultrapassar um corpo inapto para correrias. Lá em casa passou a haver dois automóveis, e nem a sensibilidade ambiental que nos levou, noutras questões, a tomar decisões mais consentâneas com o bem comum nos fez parar para pensar se poderíamos viver de outra forma. Afinal, se três quartos das famílias das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto têm dois automóveis

O livro que estou a ler tem o título From What is to What If, que eu traduziria para Do Que É Ao Que Poderia Ser. Nele, o autor, Rob Hopkins, co-fundador do movimento para a Transição, desafia-nos a questionar muitas das situações que tomamos como naturais, com o objectivo de mudarmos comportamentos e construirmos comunidades mais adaptadas às alterações climáticas e mais resilientes perante as crises que enfrentamos. O problema, escreve ele, é que hoje nem nos damos ao trabalho de imaginar como seria, se... E isso é um passo para a concretização das nossas piores previsões

A mobilidade, muita dela assente no transporte individual, é causa de 25% das emissões de gases com efeito de estufa. É um número para fixar hoje, terça-feira, que é Dia Europeu Sem Carros. Para mim, a data é festiva. A uma pergunta, a um “E se…?”, em 2018, na véspera deste dia, abdicamos de um automóvel, integramos uma bicicleta nas rotinas diárias e, com ela, percebemos que precisamos menos do outro carro do que julgávamos. Foi uma escolha, com um nível de sacrifício muito menor do que imaginaríamos à partida, e com ganhos de prazer e bem-estar que nem nos nossos sonhos antecipávamos. E, dia após dia, ajudou-me, ainda, a aproximar-me mais, física e intelectualmente, daqueles para quem não andar carro não é uma opção.

Por motivações várias (algumas razoáveis, outras não), mesmo em circuitos urbanos os portugueses aprenderam a confundir mobilidade com um automóvel e liberdade com número de vias de trânsito e limites generosos de velocidade. Esquecendo, demasiadas vezes, que a pessoas como àquele homem que me fez antever um futuro plausível, a máquina que conduzia e a via dedicada dão-lhe a liberdade que um carro não daria pois dependerá da disponibilidade de outra pessoa para o conduzir. O mesmo com as crianças. O mesmo com os nossos velhos, para quem guiar um carro se vai tornando penoso e, quantas vezes, perigoso. O mesmo para todos os outros que só possam seguir a pé, ou de bicicleta, por não terem dinheiro para mais. 

PÚBLICO -
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Campanha em Inglaterra, contra a dependência do automóvel nas cidades DR

A todos esses, falta-lhes, contudo, cidade. O condutor daquela e-scooter vagarosa pode ver o mar, mas, se quiser seguir outros caminhos, encontrará passeios onde se sentirá um invasor, estradas onde será tido como um lento forasteiro, ruas transformadas em parques de estacionamento por onde terá dificuldade em passar. Já para não falar das rampas inclinadas, degraus, mobiliário urbano, e outras armadilhas que uma miríade de técnicos e decisores espalharam pela cidade e que demoram a desaparecer da nossa paisagem desigual, feita para um arquétipo irreal de portugueses mais-que-perfeitos: homens, adultos, condutores. Duvida? Pergunte a uma mãe com um carrinho de bebé.

Espero demorar uns anos a ter de passar da bicicleta para um veículo como este. Mas, se lá chegar, não quero, como milhares de portugueses, ficar preso ao medo, em casa, a ver, da janela, ruas pejadas de carros eléctricos, que nos pouparão ao barulho e ao fumo, mas continuarão a roubar o espaço que devia ser de todos. Espero que, nas cidades onde vivo e trabalho, haja decisores capazes de fazer a pergunta: E se…? Que haja gente capaz de perceber que a urgência de um passeio e de uma ciclovia não se mede pelo número de pessoas que as usa, mas pelo direito que temos a usá-las; gente com a consciência plena de que não há injustiça maior do que planear para os mais fortes, deixando para trás uma maioria, só porque esta ainda não percebeu que a luta pelo direito à rua, a uma rua com menos carros, é, também, uma luta pela liberdade e pela justiça social. 

 
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