Morreu Michael Lonsdale, actor de Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira

Foi quase sempre actor secundário, mas deixou uma carreira de várias centenas de personagens, entre o teatro, o cinema e a televisão, que marcaram o cinema francês e mundial. Tinha 89 anos.

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Michael Lonsdale em Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira DR
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Michael Lonsdale entre Jeanne Moreau e Claudia Cardinale na estreia de Gebo e a Sombra em Paris, em 2012 MIGUEL MEDINA/AFP

Interpretou a figura austera e cansada de um pai cobrador de dívidas na última longa-metragem de Manoel de Oliveira, Gebo e a Sombra (2012), ao lado de Jeanne Moreau e Claudia Cardinale, Leonor Silveira e Luís Miguel Cintra, mas este foi apenas uma das várias centenas de personagens que Michael Lonsdale interpretou, no cinema, na televisão e no teatro, durante uma carreira com mais de meio século.

O actor francês morreu esta segunda-feira, aos 89 anos, na sua casa de Paris, segundo informação prestada à AFP pelo seu agente Olivier Loiseau.

Além de Oliveira, Michael Lonsdale trabalhou com muitos dos grandes nomes do cinema mundial, de Marguerite Duras a Orson Welles, de François Truffaut a Luis Buñuel, de Louis Malle a Steven Spielberg, de Jean-Jacques Annaud a Milos Forman. Ou seja, teve sempre um pé assente no cinema do seu país, mas ao mesmo tempo correu o mundo, deixando, ao lado do seu eclectismo, o rasto de uma figura que ora se transmutava no terrível vilão psicopata Drax em 007 – Aventura no Espaço (Lewis Gilbert, 1979), ora no abade bibliófilo de O Nome da Rosa (1986), que Jean-Jacques Annaud realizou a partir do romance de Umberto Eco.

Michael Lonsdale “foi cúmplice irredutível das vanguardas e dos autores contemporâneos, cuja aparição em êxitos de bilheteira permitiu converter-se num rosto muito conhecido do grande público”, escreveu esta segunda-feira o jornalista Mathieu Macheret no obituário do Le Monde.

Outra marca da sua carreira foi ter sido quase sempre uma figura secundária nos elencos artísticos dos filmes em que entrava, mesmo se, a partir daí, ele os marcava com a sua voz rouca e porte britânico – filho de mãe francesa e pai inglês, o seu bilinguismo foi sempre uma mais-valia –, e a sua presença simultaneamente excêntrica e sofisticada.

Foi na qualidade de actor secundário que, em 2011, Lonsdale recebeu o único César da sua carreira, pela figura do frade Luc Dochier no filme de Xavier Beauvois Dos Homens e dos Deuses (2010). “Michael Lonsdale ofereceu ao cinema francês dos últimos 50 anos uma das presenças mais fascinantes e inesquecíveis”, escreve, a propósito, o Le Monde.

Outra curiosidade na carreira do actor foi ter interpretado por várias vezes personagens da galeria da religião católica – ele que era um católico assumido e praticante, baptizado quando já tinha 22 anos! Começou por fazer a figura de um padre em O Processo (1962), de Orson Welles, adaptação da obra homónima de Kafka; foi cardeal no filme Galileu (1974), de Joseph Losey; fez o arcanjo Gabriel em A Minha Vida É um Inferno (1991), de Josiane Balasko, e – lembra também o Le Monde – recusou interpretar a personagem de um bispo no filme de Costa-Gavras Amen (2002), por causa do seu pressuposto anticlerical ao tratar o colaboracionismo do Papa com o nazismo.

Adolescência em Marrocos

Michael Edward Lonsdale nasceu em Paris a 24 de Maio de 1931, filho de uma francesa de ascendência burguesa e de um militar inglês. Em 1939, o pai leva a família para Marrocos, onde acaba por passar a período da II Guerra Mundial. No regresso a França, em 1947, já só com a mãe, que o jovem Michael entra no mundo da cultura, interessando-se pela literatura e pela pintura, que chegou a pensar cultivar. Mas o teatro mete-se pelo meio, quando assiste a uma peça de Strindberg e quando, mais tarde, decide tornar-se actor depois ver Brecht. No início da década de 50, entra para o curso de Tania Balachova, no Studio des Champs-Elysées. Mais tarde, torna-se “compagnon de route” do encenador Claude Régy, com quem fará 18 peças de autores como Marguerite Duras, Peter Handke ou Luigi Pirandello.

Em paralelo com os palcos, desde a última metade dos anos 50 que Michael Lonsdale frequentava os ecrãs, do cinema e da televisão, tendo-se já feito notar em Snobs! (1962), de Jean-Pierre Mocky. O trânsito entre os dois mundos acabaria por fazê-lo também pela mão de Marguerite Duras, que, depois do palco, o levou para o grande ecrã em Détruire, dit-elle (1969), Jaune et Soleil (1971) e principalmente India Song (1975), que se tornaria um filme de culto e onde faz o papel de um vice-cônsul algo fantasmático, ao que dizem muito marcado pela figura do pai, depois de ter estado preso dois anos pelas autoridades do governo colaboracionista de Vichy durante a guerra.

Pelas décadas adiante, Lonsdale continuou a saltar entre os ecrãs e os palcos – em 1972, fundou mesmo, com Michel Puig, o Théâtre Musical des Ulis, em Paris. René Clément (Paris Já Esta a Arder?, 1966), François Truffaut (A Noiva Estava de Luto e Beijos Roubados, ambos de 1968) e Jacques Rivette (Out 1, 1971/2), em França; ao lado de Fred Zinneman (Chacal, 1973), Luis Buñuel (O Fantasma da Liberdade, 1974), John Frankenheimer (Ronin, 1998) ou Steven Spielberg (Munique, 2005), são alguns outros cineastas com quem trabalhou ao longo de uma carreira extensa, e caracterizada – nota o jornalista do Le Monde – pela fixação de “uma distância perante a personagem, na qual podem muito bem caber a ironia e a reflexão”.