A importância da investigação nacional na resposta à covid-19

A resposta à maior crise de saúde pública de toda uma geração depende de um SNS bem preparado, complementado com indústria de investigação e desenvolvimento, pública e privada.

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Rui Gaudencio

O primeiro-ministro alertou recentemente para a necessidade de haver uma independência nacional em termos de capacidade de produção. Falando especificamente de produtos de reposta à pandemia de covid.19, mencionou equipamentos como máscaras de protecção. De facto, numa situação de emergência, não só vai estar a produção remota afectada, mas a distribuição desses produtos vai também estar comprometida, que aliados ao aumento da procura, poderão resultar em rupturas de stock imprevisíveis.

Reflectindo para o que aconteceu desde o início da pandemia, o alerta poderia ter ido ainda mais longe, já que ficou bem patente a necessidade de capacidade de investigação e produção local de tecnologia de saúde. Começando pelo rastreio covid-19, que se reflectiu numa falha global de equipamento, desde zaragatoas até material de laboratório, em que países com produção local priorizaram as suas necessidades, em detrimento da exportação. Portugal conseguiu recrutar a massa crítica académica nacional, usando a sua inovação para desenvolver um protocolo alternativo de diagnóstico, usando reagentes disponíveis em excesso ou sintetizados localmente. Também a mão-de-obra científica foi recrutada ou ofereceu-se como voluntária para o trabalho laboratorial de diagnóstico, que contribuiu para que Portugal seja dos países que mais testam no mundo.

Em paralelo, a indústria mobilizou-se para a produção de ventiladores, viseiras de protecção impressas em 3D  ou máscaras de protecção que inactivam o vírus. Estes produtos ajudaram a assegurar a capacidade de resposta do SNS, contribuindo para que não se chegasse a um ponto de ruptura. Porém, embora significativos na resposta a curto prazo (rastreio, diagnóstico, protecção ou cuidados intensivos), estas são resultado de parcerias e iniciativas individuais, e não de uma política de inovação concertada.

De facto, a principal empreitada de resposta à covid-19 é a produção de uma vacina. A corrida à resposta tem-se traduzido num movimento especulatório em que os diferentes governos tentam assegurar a maior quantidade possível de doses do teórico produto, que poderá nem vir a existir (como o caso da vacina em desenvolvimento da AstraZaneca. E é neste aspecto que a existência de uma indústria biotecnológica nacional forte se mostra importante, já que sem capacidade produção própria se mantêm os riscos associados a uma necessidade de importação observados no início da pandemia.

A resposta à maior crise de saúde pública de toda uma geração (e de outras que possam vir a acontecer) depende de um SNS bem preparado, complementado com indústria de investigação e desenvolvimento, pública e privada, capaz inovar rapidamente face a novos desafios, com capacidade de resposta a larga escala.