Editorial

Um Estado digital com uma economia a vapor

Quando se diz que o plano inspirado no extenso inventário de António Costa Silva tem de esboçar o país que queremos para o futuro, o que se quer significar é a urgência de corrigir males do passado

O Governo começou a desvendar o destino das vultuosas ajudas do Plano de Resiliência e Recuperação e os sinais não são auspiciosos. No essencial, a fatia mais generosa das subvenções esperadas de Bruxelas tem como destino o Estado, o que equivale a dizer que o Governo aposta no reforço do nó que tem estado na origem dos problemas do país nas últimas décadas. Se não se questiona que o Governo invista 3200 milhões na área social contra 2500 milhões no potencial produtivo no eixo da “resiliência”, já não se percebe por que razão quer o Governo gastar 1800 dos 3000 milhões de euros para a digitalização na Administração Pública, deixando para as empresas apenas 500 milhões. E não se percebe, porque basta ver a história recente do país para entendermos que o seu maior problema não é a qualidade do Estado ou dos seus serviços: é a persistência de uma economia frágil e em, muitas áreas, anacrónica.

Quando se diz que o plano inspirado no extenso inventário de António Costa Silva tem de esboçar o país que queremos para o futuro, o que se quer significar é a urgência de corrigir males do passado. Portugal não cresce há duas décadas e esse desempenho decepcionante não resulta apenas dos custos da moeda única; o país está, há anos, a cair na tabela do rendimento per capita face à média europeia; dez anos depois da brutal destruição económica nascida com Sócrates, com o BES e com a corrupção, sabemos que nada mudou estruturalmente para sairmos da armadilha do rendimento médio; apesar dos avanços da ciência e da qualificação das novas gerações, o tecido produtivo continua incapaz de oferecer grandes perspectivas para o futuro.

Se é crucial travar situações de fragilidade social ou investir nas infra-estruturas, tem igualmente de haver o sentido de prioridade para se lançarem as bases de uma economia saudável. Não se trata de ideologia, mas de racionalidade e de exigência para seguir o padrão europeu de democracia e prosperidade. O que agora sabemos de uma parte do plano não cumpre essas expectativas. Se, no final, o plano for repartido como o foi no capítulo das subvenções, o Bloco e o PCP poderão esfregar as mãos de contentes com o império da estatização, mas a sociedade portuguesa ficará amarrada à sua condição actual. Um Estado de primeira com uma economia de terceira será sempre uma receita ideal para a persistência da pobreza, para o défice e a dívida e, em última instância, para a nossa dependência externa.

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