Emmys 2020: “Porque é que estamos a ter uma cerimónia de prémios a meio de uma pandemia?”

A estranha cerimónia dos prémios da televisão apresentada por Jimmy Kimmel em plena Covid-19 deu estatuetas a Schitt’s Creek, Succession e Watchmen.

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Jimmy Kimmel apresentou a 72ª edição dos Emmy, em plena pandemia LUSA/EMMY AWARDS / HANDOUT

No início da 72ª edição dos Emmy, este domingo à noite, Jimmy Kimmel, o apresentador, falava para uma plateia vazia, com imagens e sons de pessoas a rirem nos anos anteriores a serem mostradas em vez de um público ao vivo. O próprio anfitrião referiu isso a seguir a ter aparecido no público, acabando por mostrar os lugares sem ninguém, substituídos por recortes em papelão grandes dos nomeados, em todos os casos menos o de Jason Bateman, que estava mesmo lá. Pouco antes, na parte da passadeira vermelha, entrevistavam-se os nomeados a partir de casa, através de videoconferência. E foi em casa, ou em ajuntamentos controlados, que os vencedores receberam as estatuetas, entregues por pessoas com fatos para tratar matérias perigosas.

Jimmy Kimmel perguntou mesmo no monólogo de abertura: “Porque é que estamos a ter uma cerimónia de prémios a meio de uma pandemia?” A resposta dada pelo próprio é que, mesmo que os Emmy sejam “frívolos e desnecessários” todos os anos, são também “divertidos”. Não obstante a falta de público, houve alguns apresentadores e vencedores a juntarem-se a Jimmy Kimmel aparecerem mesmo na cerimónia, com nomes como Jennifer Aniston (que, com Courteney Cox e Lisa Kudrow, protagonizou uma mini-reunião do elenco de Amigos), Tracee Ellis Ross, Anthony Carrigan, Zendaya, Jason Sudeikis, Randall Park, Anthony Anderson, Cynthia Erivo, Laverne Cox ou Tyler Perry, que venceu o prémio do Governador.

Só depois de passada uma hora da abertura da cerimónia é que finalmente houve uma estatueta que não fosse para Schitt's Creek, a série cómica canadiana impossível de ver legalmente em Portugal sobre uma família rica caída em desgraça que tem de viver numa pequena cidade que um dos membros comprou a gozar em tempos de vacas gordas. É que, até aí, a criação da dupla de filho e pai Dan e Eugene Levy, ajudada em muito pela lenda cómica Catherine O'Hara, com quem Eugene trabalha desde os tempos da seminal série de sketches SCTV, varreu tudo o que era prémio de comédia. Pela primeira vez, uma série ganhou todos os prémios de representação na sua categoria, e uma série cómica ganha todos os prémios. Foram, ao todo, sete estatuetas para a série que chegou ao fim este ano após seis temporadas.

No campo das séries dramáticas, Succession, que é na realidade uma comédia de acordo com a imprensa da especialidade, conseguiu sete prémios, incluindo o de Melhor Série Dramática. Jesse Armstrong, o criador britânico por detrás deste fenómeno da HBO sobre a crise de sucessão num império dos média, falou, no seu discurso final, contra os magnatas dos média que ajudam fascistas a chegarem ao poder. Na categoria de drama, Jeremy Strong ganhou o prémio de Melhor Actor pelo seu papel na série, enquanto Zendaya, de 24 anos, se tornou a actriz mais nova a ganhar o prémio de Melhor Actriz por Euphoria, também da HBO. Nas categorias secundárias, Julia Garner, por Ozark, da Netflix, e Billy Crudup, por The Morning Show, da Apple, foram surpresas.

Watchmen, a adaptação que Damon Lindelof fez para a HBO a partir da novela gráfica clássica que Alan Moore e Dave Gibbons escreveram nos anos 1980, conseguiu conquistar quatro Emmy, incluindo Melhor Série Limitada e Melhor Actriz para Regina King, que ganhou assim a sua quarta estatueta. Nos discursos de aceitação, tanto Lindelof quanto Cord Jefferson, argumentista, sublinharam o massacre de Tulsa, Oklahoma de 1921, um macabro facto histórico que é uma parte importante da história sobre supremacia branca na polícia que a série tenta contar, em que grupos armados de pessoas brancas, com a benção das autoridades, destruíram toda uma próspera comunidade negra, matando e ferido centenas de habitantes. Lindelof ainda deixou um conselho sobre os tempos que vivemos em que muita gente se queixa de uma hipotética “cultura de cancelamento": “Pára de te preocupar em ser cancelado e pergunta a ti próprio o que estás a fazer para ser renovado”.

Ainda nas séries limitadas, Mark Ruffalo recebeu um prémio por I Know This Much is True, outra série da HBO, Yahya Abdul-Mateen II por Watchmen e Uzo Aduba por Mrs. America, do FX. Maria Schrader ganhou o prémio de realização por Unorthodox, da Netflix.

A cerimónia foi feita ao som da música passada por D-Nice, que foi membro dos Boogie Down Productions de KRS-One. A SIC Caras exibiu-a com algumas falhas ao longo da noite. Houve, nela, tempo para uma montagem de in memoriam ao som de uma versão de Nothing Compares 2 U, o clássico de Prince imortalizado por Sinead O'Connor, interpretado por H.E.R., David Letterman a dar o prémio ao Last Week Tonight de John Oliver com um smoking que, diz ele, não usava desde que apresentou os Emmy em 1986, tirando do bolso piadas sobre drogas, Neil Diamond e Oliver North.

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