Crónica

A barbárie amontoou-se em Cabo Delgado

Abrir uma investigação independente não se trata de não apoiar os nossos militares, mas de garantir que a honra de todo um exército não é sujada por um grupo de pessoas; que mais mulheres, homens e crianças não são mortos e violentados por quem os deve defender.

Um rio de sangue a inundar-me a margem do dedo. Pela janelinha do quarto, uma noite carregada de frio e um céu nublado que teima em não chover a espreitarem-me com a malícia estampada nos olhos. Um sentimento de pesar nisto tudo. Talvez venha do dedo, mas um sentimento de pesar a furar-me a botija do coração como o bico de um prego a penetrar uma parede enferrujada pelo tempo. Doem tanto as feridas que se vão nos abrindo no corpo. Não interessa quem as abre. Palavra de honra, enquanto estivermos vivos doem tanto as feridas que se vão nos abrindo no corpo. Do nada a voz de Caetano Veloso, no meio de estrondo do silêncio, para mim

          estou triste, tão triste. Estou muito triste…

O corpo da mulher negra que ziguezagueia na estrada como uma agulha a fazer uma bainha continua levando fortes golpes da vara que um dos homens que veste a farda militar traz na mão. Será uma cabra indo ao pasto? O terror toma conta dos intestinos da mulher e amontoados de fezes vão lhe saindo do corpo enquanto grita e tenta esquivar. Os homens com a farda militar carregam litros de sangue e balas em grandes espingardas que lhes dão autoridade e poder para encarnarem o demónio.

Se o paraíso não existir depois disto juro que continuarão a perseguir para voltar a espancá-la e depois regá-la com trinta e seis balas que lhe abrem feridas no corpo nos últimos segundos da sua vida. Tanta crueldade, meu Deus! Tanta crueldade e muitos de nós ainda não acordámos para ver que há muito que Cabo Delgado deixou de ser um cancro apenas moçambicano; há muito que Cabo Delgado é o gólgota de toda a humanidade. A barbárie sempre perseguindo as pessoas que já nascem e crescem algemadas e abraçadas ao sofrimento. Nesta noite a voz de Caetano não se cala, vai desenrolando-se com muito desânimo,

            sinto o peito vazio e ainda assim farto. Estou triste, tão triste.

O maldito sangue a inundar-me a margem do dedo sem parar. Debaixo do sangue um corte que se estica de uma ponta à outra do dedo. Se quiseres saber, sinceramente não sei como ele apareceu, apenas de repente uma dorzinha e muito sangue a jorrar pela fenda que se abriu no dedo. Mas quão extenso é o mar de sangue que banha as terras de Cabo Delgado?

O Governo desde o início do conflito a minimizar isto tudo. E a ferida foi se abrindo, se infectando e agora tudo podre por aqueles lados. E o Presidente da República no mesmo silêncio de sempre; no mesmo silêncio que ensurdeceu a todos quando foram mortos cinquenta e dois jovens que se recusaram a entrar para as fileiras dos terroristas em Muidumbe; no mesmo silêncio que nos habituou quando a batata fica quente.

A mulher negra nua e grávida de desespero a ser violentada e chacinada numa estrada de Cabo Delgado e os mesmos de sempre a tentarem fazer-nos acreditar que aquelas imagens são uma montagem dos terroristas, que não existe violação de direitos humanos em Cabo Delgado, que somos antipatriotas e lesa-pátrias todos os que exigimos uma investigação independente da existência ou não de violação de direitos humanos pelas Forças de Defesa e Segurança.

Muito sangue em Cabo Delgado e muitos de nós a esquecermos que a primeira vitória não é contra os terroristas, mas contra a desumanidade que existe dentro de cada um de nós, não só dentro daqueles militares que enterram o juramento que fizeram à bandeira quando violentam os seus compatriotas, mas dentro de nós que defendemos que na guerra vale tudo e aceitamos que se execute uma pessoa de forma tão vil sem nenhum prévio julgamento só porque se suspeita que está do lado dos terroristas. Abrir uma investigação independente não se trata de não apoiar os nossos militares, mas de garantir que a honra de todo um exército não é sujada por um grupo de pessoas; que mais mulheres, homens e crianças não são mortos e violentados por quem os deve defender. 

Nesta noite, um rio de sangue a me inundar a margem do dedo e descendo na cascata da unha, um céu que teima em não chover, os meus olhos diluídos em lágrimas e a voz de Caetano Veloso que não se cala

          e o lugar mais frio do rio é o meu quarto. Estou triste, tão triste, estou muito triste.

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