Psicomotricidade, para que te queremos?

Através da psicomotricidade, pretende-se contribuir para uma melhoria na sua capacidade de receção, integração, processamento, planificação e expressão da informação.

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O nascimento de uma criança é algo de absolutamente maravilhoso na maioria das famílias.

Por muito que se repita de bebé para bebé, os pais assistem, rendidos, a cada nova conquista, ao atingir de uma nova etapa. No exame do recém-nascido, por exemplo, fatores como a tonicidade, a postura ou os reflexos dão indicações sobre a sua integridade neurológica. Para a família, as primeiras evidências de que tudo corre bem são também muitas vezes psicomotoras: o agarrar o dedo dos pais com força, procurar chuchar quando se toca no rosto, as “cócegas” nos pés, ou, mais tarde, os primeiros passos. É pelo seu corpo em movimento que a criança se relaciona e se apropria do mundo que a rodeia e o veículo através do qual muitas das suas competências se vão desenvolvendo de forma sequencial e crescentemente complexa, contribuindo para o mapeamento das emoções e tornando-se consciente pela experiência. Ao longo de toda a vida, este ciclo repete-se, promovendo ou inibindo comportamentos. Tendo em conta que o corpo e o pensamento vivem em estreita relação e que todo o movimento tem uma expressão no cérebro, pretende-se, através da psicomotricidade, contribuir para uma melhoria na sua capacidade de receção, integração, processamento, planificação e expressão da informação.

Um exemplo prático e atual: o Luís tem 6 anos, esteve em casa de março até junho, em confinamento, e vai iniciar, agora, o 1.º ano. Antes deste período, já seria difícil para ele fazer desenhos como os dos colegas e escrever letras e números estava a ser um verdadeiro desafio. Na verdade, ainda agarrava o lápis com a palma da mão, quando tinha de pintar, atividade que descrevia, invariavelmente, como “uma grande seca”. Durante o final do pré-escolar, como os pais estavam em teletrabalho e ele quase não conseguia fazer atividades sozinho, o tempo de ecrã aumentou. De manhã, via bonecos animados ou jogava no tablet. À tarde, os pais, atolados em trabalho, em stress, mas com a perfeita noção de que o Luís não podia estar todo o dia a ver vídeos no YouTube, tentavam fazer atividades com ele, enquanto trabalhavam online, mas rapidamente o Luís se desinteressava ou fazia “a despachar”, perguntando: Posso ir para o tablet?” Os pais ficavam angustiados. Entretanto, o Luís voltou para a escola. No primeiro dia, adormeceu cedíssimo, porque correu o dia inteiro a brincar com os amigos — que saudades! Entretanto, a educadora telefonou aos pais. Se antes o Luís parecia ser imaturo na pega do lápis e na capacidade de manter a atenção, agora, tal era muito preocupante, porque ia começar a escola daí a pouco tempo. A educadora sugeriu que procurassem um psicomotricista.

Paremos aqui esta história. Em algum momento do crescimento do Luís algo interferiu com o normal desenvolvimento da sua motricidade fina. Imagine-se que os pais também experimentaram dificuldades semelhantes ou que o meio do Luís não lhe permitiu a experiência adequada às suas características individuais, levando a uma imaturidade psicomotora, ou até a não conseguir manter-se atento aos diferentes elementos ou compreender as relações espaciais necessárias para fazer um desenho ou escrever uma letra. Nesta situação, o psicomotricista iria realizar uma avaliação, provavelmente multidisciplinar, de modo a delinear uma intervenção com recurso ao lúdico, que promovesse o desenvolvimento da motricidade fina, a capacidade de mobilização e controlo da atenção e a implementação de estratégias de organização/modificação de comportamento/contexto, a serem implementadas nos diferentes universos de vida da criança. Esta é uma história frequente, mas existem muitas outras nas quais se solicita a intervenção de um psicomotricista, que pode atuar da primeira infância à terceira idade: na presença de perturbações de desenvolvimento, na adequação do contexto à pessoa, na promoção de competências pré-escolares e de aprendizagem, na promoção de competências pessoais e sociais, na estimulação cognitiva na terceira idade, para prevenir o declínio em termos de coordenação motora, entre tantas outras.

Para melhor o ajudar a concretizar esta profissão, cada vez mais presente em vários contextos educacionais e clínicos, contactámos a Associação Portuguesa de Psicomotricidade (APP), que nos informou que existem, atualmente, cerca de 2500 profissionais formados, desde o início da licenciatura em Reabilitação Psicomotora, em 2002, que se encontra na Classificação Portuguesa de Profissões, desde 2010 e que integra o conjunto de profissões de técnicos superiores com carreira em IPSS. Orgulhe-se, pois graças ao trabalho realizado pela APP e pelas universidades que lecionam cursos superiores de 1.º e 2.º ciclos, Portugal faz parte do conjunto de países da Europa que tem formação mais avançada e especializada na área da psicomotricidade. Ontem foi Dia Europeu da Psicomotricidade. Parabéns!


Técnicas superiores de reabilitação psicomotora no CADIn

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