Emily Ratajkowski é modelo e ao ser fotografada foi perdendo o direito à sua própria imagem

A modelo norte-americana escreveu um ensaio onde revelou ter sido abusada sexualmente por um fotógrafo e contou a história de como gradualmente foi perdendo o direito à sua imagem.

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Num ensaio publicado no The Cut, Emily Ratajkowski aborda a problemática do direito à imagem de uma figura pública Danny Moloshok/Reuters

Emily Ratajkowski tem uma carreira como modelo e actriz iniciada há pouco mais de 10 anos. Já fez diversas sessões fotográficas para revistas como Sports Illustrated, GQ ou Vogue e fez participações em algumas longas-metragens como Gone Girl, de David Fincher, e In Darkness, de Anthony Byrne. Mas foi o videoclip da música Blurred Lines, de Robin Thicke e Pharrell Williams, que a empurrou para o estrelato, em 2013.

Num ensaio publicado no The Cut, website pertencente à revista New York, a modelo de 29 anos embarca numa viagem pelo seu passado e revela diversos pontos da sua vida que, gradualmente, resultaram numa perda do direito à sua imagem. Emily começa por situar o leitor em 2019, quando publicou no seu Instagram uma fotografia tirada por um paparazzo e foi processada em 150 mil dólares (cerca de 126 mil euros).

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Fotografia tirada por um paparazzo e publicada por Emily no seu Instagram Emily Ratajkowski

A modelo explica que o fez porque gostou da mensagem contida na imagem, onde a sua cara não é visível devido ao ramo de flores que segura, algo que viu como representativo da sua relação com os paparazzi. Desde 2013, quando ganhou fama pelo videoclip de Blurred Lines, que está “habituada a que homens corpulentos apareçam de repente do meio de carros ou por trás de esquinas, com buracos negros vidrados no lugar das suas caras”.

Em causa está o direito de autor do fotógrafo que, de acordo com Mário Serra Pereira, licenciado em direito e autor de diversos artigos sobre a relação da imagem com o direito, se sobrepõe ao de imagem de Emily. “Há um limite muito difuso entre o que é permitido e o que não é. Em Portugal vemos muitas situações de fotografias desta natureza e nem todas dão origem a problemas”, diz o formador da Academia Olhares, acrescentando que “aqui coloca-se um limite muito delicado: onde termina, em público, a privacidade de uma figura pública.”

De seguida, Emily volta atrás no tempo, até 2016, e revela que quando visitou uma exposição de Richard Prince – Richard Prince’s Instagram Paintings – se deparou com uma imagem da sua página de Instagram em exibição na galeria. As exposições deste artista consistem numa série de fotografias ampliadas de diversas páginas do Instagram, comentadas pelo próprio.

Se a modelo quisesse o quadro de uma foto publicada por si na sua rede social, teria de pagar 80 mil dólares (cerca de 67 mil euros). “Pareceu estranho que tivesse de comprar de volta uma imagem minha — especialmente uma que tinha publicado no Instagram, que, até à altura, sentia que era o único lugar onde podia controlar como me apresento ao mundo. Um resquício da minha autonomia.”

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Emily junto a um segundo quadro feito por Richard Prince, cedido à modelo por este Emily Ratajkowski

Por fim, a jovem actriz revela o ponto mais fulcral do seu ensaio. Para tal, o leitor é levado ainda mais ao passado, até 2012, quando Emily tinha apenas 20 anos e começava a sedimentar a sua carreira como modelo. A sua agente da altura arranjou uma sessão fotográfica em Nova Iorque, com o fotógrafo Jonathan Leder. As fotografias seriam publicadas na revista sueca Darius.

Emily apanhou um avião em Los Angeles e encontrou-se com Jonathan em Woodstock, a cerca de 170 quilómetros da cidade que nunca dorme. A sessão decorreria na casa deste, onde estava apenas uma maquilhadora, e onde a modelo teria de pernoitar. Durante a viagem de carro, “o Jonathan nunca olhou para mim directamente”, escreve Emily. “Quanto mais desinteressado ele parecia, mais eu queria provar que era merecedora da sua atenção. Sabia que impressionar estes fotógrafos era uma parte importante de construir uma boa reputação.”

A sessão fotográfica foi feita num dos quartos, com Emily em lingerie, enquanto Jonathan a fotografava com uma máquina Polaroid. Depois de algumas tentativas, o fotógrafo quis experimentar fotos com a jovem nua. “Tinha sido fotografada nua meia dúzia de vezes, sempre por homens. Ainda assim, no segundo em que tirei a roupa, parte de mim desassociou-se. Comecei a flutuar fora de mim mesma, a observar-me enquanto subia novamente para a cama.”

Nos intervalos dos disparos da máquina, Emily revela que foi bebendo vinho, oferecido por Jonathan (nos EUA a idade mínima legal para ingerir bebidas alcoólicas é 21 anos). Já a noite ia longa, quando o fotógrafo, alegadamente, abusou sexualmente da modelo. Emily nunca contou o que sucedeu nessa madrugada de 2012 até agora.

As fotografias da sessão foram publicadas na revista e passados alguns anos, quando a actriz já tinha “enterrado as imagens e o Jonathan algures” no fundo da sua memória, o fotógrafo compilou várias das polaroids tiradas naquela noite e publicou um livro, intitulado somente Emily Ratajkowski, assim como organizou uma exposição numa galeria.

Nos EUA, em termos judiciais, não havia muito que a jovem pudesse fazer para impedir que o livro fosse publicado. A sua advogada informou-a de que talvez conseguisse obter os direitos do livro e parte dos lucros, mas que as imagens já estavam na internet e aí ninguém as podia apagar. Em Portugal, sublinha Mário Serra Pereira, este tipo de situação não é permitido. “A utilização comercial de fotografias de alguém carece de autorização expressa da pessoa.”

O livro acabou por ser reimpresso três vezes, com a última edição publicada no final do ano passado, já esgotada. Em 2017, à data da primeira publicação, o fotógrafo deu uma entrevista onde falou sobre a referida sessão e mencionou que Emily não era tímida ou insegura. “Dizer que ela gostava de estar nua é um eufemismo.” No que toca à disputa pelo direito de imagem, Leder disse que Emily deveria apoiar a divulgação das fotografias.

Uma vez que foi dada autorização por parte de Ratajkowski para ser fotografada na sessão em 2012, de acordo com a lei, o fotógrafo pode utilizar as fotografias posteriormente. Contudo, “ainda que haja consentimento, e agora falo na lei portuguesa, a pessoa fotografada pode dizer que não autoriza a utilização das fotografias a partir de determinada altura”, diz o formador português. “O facto de ter havido abuso sexual não invalida que anteriormente tenha havido o consentimento e que ele utilize as fotos para a revista e depois para um livro. São questões diferentes. Poderá, sim, colocar-se um problema de ordem moral.”

Emily Ratajkowski termina o ensaio confessando que já pensou em vender o quadro de Richard Prince e utilizar o dinheiro para processar Joanthan Leder. Porém, não quer gastar mais recursos financeiros com ele e crê que, eventualmente, as fotografias “nunca antes exibidas” se esgotarão, enquanto ela continuará a ser a verdadeira Emily.

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