Padre acusado de roubar esmolas e arte sacra em silêncio no julgamento

António Teixeira nunca confessou roubos. É acusado de furto qualificado, abuso de confiança agravado e branqueamento de capitais, por causa dos 19 automóveis que comprou ao longo dos últimos anos.

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Rui Gaudencio

Acusado de se ter apoderado de mais de 400 mil euros da igreja entre esmolas e peças de arte sacra e de ter usado parte do dinheiro para comprar carros, o padre António Teixeira remeteu-se ao silêncio na primeira sessão de julgamento, que está a decorrer esta terça-feira no Campus da Justiça, em Lisboa. Diz que falará mais tarde, quando considerar oportuno, dos crimes que lhe são imputados: furto qualificado, abuso de confiança agravado e branqueamento de capitais.

Com 54 anos, António Teixeira não é um padre qualquer: desde muito cedo que o seu discurso crítico de algumas posições mais conservadoras da igreja tem cativado muitos dos fiéis das paróquias por onde tem passado. Porém, o Ministério Público entende que nem sempre as suas palavras têm correspondido aos seus actos e assacam-lhe o roubo, na paróquia do Santo Condestável, em Lisboa, de valiosas antiguidades de arte sacra. Um cálice cerimonial adornado com safiras, rubis e esmeraldas e algumas imagens do séc. XVII estão entre as dezenas de peças que desapareceram das igrejas do Santo Condestável, em Lisboa, onde foi pároco entre 2015 e 2017. Além das imagens, do rol fazem parte variado mobiliário eclesiástico e vários objectos em prata ou marfim, como crucifixos e custódias. 

Trata-se de peças “de valor histórico e religioso que foram retirados do interior da igreja e da residência paroquial e vendidos pelo arguido sem o consentimento da diocese”, descreve a acusação, que explica que no caso dos objectos de maior valor essa autorização teria de ser concedida pela Santa Sé. Parte deste espólio foi encontrado pela Polícia Judiciária na posse dos antiquários João Ramada e Carlos Santos. Mas nem todas as peças de arte sacra foram recuperadas, admitiu uma inspectora da Polícia Judiciária que testemunhou esta terça-feira em tribunal. 

Além disso, garante o Ministério Público, o padre esvaziou as contas bancárias não só da paróquia lisboeta como da de Nossa Senhora dos Remédios, em Carcavelos, onde esteve antes de ir para Campo de Ourique. Pelas contas da acusação, entre donativos e outro tipo de verbas apropriou-se de 258 mil euros só no concelho de Cascais, montante que “gastou em proveito próprio”. Nomeadamente em automóveis: a Polícia Judiciária contabilizou-lhe 19 carros, embora comprados em momentos diferentes, e por vezes por troca do veículo anterior, num período de seis anos.

A maioria eram carros usados e de gama média, mas o pároco, que auferia 820 euros mensais líquidos, também chegou a comprar um Mercedes classe A por 36 mil euros. Apesar de estar em seu nome, um dos Mercedes era usado por um irmão de António Teixeira. 

No arranque do julgamento o advogado de defesa, André Mendes, apelidou a acusação de “profundamente errática e injusta”. E deu alguns exemplos: a alegada atribuição ao arguido por parte dos investigadores de actos criminosos cometidos em paróquias onde já não estava naquele momento ou de onde já tinha saído e contas mal feitas. “Alguns dos carros de que fala a acusação foram comprados antes de o padre António Teixeira administrar estas duas paróquias”, observou o mesmo defensor. 

Autor de várias obras, umas de teor religioso e outras de teor histórico, António Teixeira tinha entre os seus fiéis o actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que chegou a prefaciar-lhe e apresentar-lhe um dos livros. Quando soube das suspeitas que impendiam sobre o religioso mostrou-se chocado. O arguido lançou recentemente mais uma obra na Feira do Livro de Lisboa, desta vez dedicada aos judeus, intitulada Antissemitismo, Uma História

Quando foi interrogado durante a fase de investigação deste processo, o pároco – que continua a celebrar missas, embora sem ter nenhuma paróquia a seu cargo – admite ter vendido algum património para fazer obras na casa paroquial do Santo Condestável, mas no que respeita às peças mais valiosas afirma terem desaparecido de um cofre desta igreja já depois de ali ter cessado funções.

Neste primeiro dia de julgamento António Teixeira apresentou-se em tribunal de calças de ganga e camisa eclesiástica com cabeção. Mostrando alguma tensão, segurava na mão um terço, que ia rodando entre os dedos. O pároco foi denunciado à Polícia Judiciária em 2017, logo a seguir a abandonar o Santo Condestável, pelo seu sucessor nesta paróquia, José Manuel Pereira de Almeida, a quem alguns fiéis deram conta do desaparecimento de algumas imagens. Os inspectores haviam de descobrir durante a investigação que o património em falta era mais extenso do que pensavam estes paroquianos. 

Poderão algumas das extravagâncias do arguido em matéria de bens terrenos ser explicadas pelas doações que os paroquianos mais fervorosos lhe entregavam para seu benefícío pessoal? A crer no seu advogado é possível que sim: só um peditório para comemorar o seu 25º aniversário da sua ordenação como padre rendeu-lhe 22 mil euros, tendo havido quem complementasse o seu baixo salário com uma ajuda. “Uma senhora que pedia o anonimato por questões familiares durante meses quase todas as semanas me entregava dinheiro num envelope com o meu nome, para que eu Julho eu pudesse comprar um presente na data da minha ordenação. Eram envelopes às vezes com centenas de euros”, deixou escrito o arguido depois de terem começado a recair suspeitas sobre a sua gestão. “Ia sendo depositado na conta da paróquia, porque também isso eu pretendia deixar um dia que saísse” do Santo Condestável. 

No mesmo escrito, o religioso alude também ao desaparecimento de uma soma elevada que guardava numa gaveta da mesa de cabeceira, e que terá sido roubada ignora por quem quando já se preparava por abandonar aquela paróquia, por se sentir doente e destroçado com a falta de acolhimento que sentia naquele momento em Campo de Ourique. “Fiquei em pânico. Não tinha provas de que tinha o dinheiro num envelope numa mesa de cabeceira e nunca o tinha dito a ninguém”, descreve. 

No que respeita às frequentes transferências entre as suas contas bancárias pessoas e as das duas paróquias, poderão, segundo o defensor, explicar-se por adiantamentos de dinheiro feitas pelo seu cliente a estas instituições. 

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