Fatah e Hamas preparam “liderança unificada” enquanto países árabes se aproximam de Israel

Com aproximação dos países árabes a Israel, facções palestinianas rivais querem deixar divergências de lado e encontrar soluções comuns para que a causa palestiniana não morra.

emirados-arabes-unidos,israel,bahrein,cisjordania,palestina,medio-oriente,
Foto
Protestos em Nablus, na Cisjordânia, contra a normalização das relações diplomáticas entre países árabes e Israel ALAA BADARNEH/EPA

De costas voltadas há vários anos, a Fatah e o Hamas preparam-se para unir forças com o objectivo de restaurar a unidade entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, numa altura em que Emirados Árabes Unidos e Bahrein concretizam a aproximação a Israel.

Durante o último fim-de-semana, depois de o Bahrein ter anunciado a normalização das suas relações diplomáticas com o estado hebraico na véspera, os líderes da Fatah (facção de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, que governa a Cisjordânia) e o Hamas (facção que controla a Faixa de Gaza) acordaram uma “liderança unificada” para responder aos acordos assinados entre Israel e os países árabes.

Para esta terça-feira, os líderes das várias facções convocaram manifestações nos territórios palestinianos, coincidindo com a assinatura oficial da normalização de relações dos Emirados e do Bahrein na Casa Branca, numa cerimónia patrocinada pela Administração Trump. Segundo o primeiro-ministro palestiniano, Mohammad Shtayyeh, a cerimónia é “um dia negro na história das nações árabes”.

De acordo com os analistas, a aproximação de Israel aos países do Golfo deixa os palestinianos a sentirem-se abandonados pelos seus aliados tradicionais, num Médio Oriente em transformação, em que o Irão parece ser o principal visado pelos acordos entre o estado hebraico e os países árabes.

Hamas e Fatah estão de estão de costas voltadas desde 2007, quando o grupo islamista expulsou as forças de segurança da Fatah da Faixa de Gaza e assumiu o controlo do território. Desde então, foram ensaiadas várias tentativas de reaproximação, mas nenhuma foi bem-sucedida.

Nos últimos dois meses, perante a ameaça de Israel anexar mais territórios palestinianos, as duas facções começaram a retomar o diálogo e acordaram a necessidade de pôr as diferenças de lado e tentar chegar a posições comuns. 

Com a aproximação dos Emirados a Israel, os grupos palestinianos perceberam que estavam cada vez mais entregues a si próprios, o que levou a uma reunião extraordinária entre o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, o líder do Hamas Ismail Haniya e o chefe da Jihad Islâmica, no passado dia 3 de Setembro.

Com o Bahrein a juntar-se a Abu Dhabi, e na iminência de outros países árabes lhes seguirem as pisadas, Fatah e Hamas emitiram um comunicado conjunto no sábado e, segundo a Al Jazeera, foi acordada a criação de três comités, que têm o objectivo de definir uma liderança unificada capaz de mobilizar os palestinianos, chegar a acordo para acabar com as divisões entre Gaza e Cisjordânia e reavivar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP).  Cada comité ficou responsável por enviar propostas concretas a Mahmoud Abbas nas próximas cinco semanas.

“A pressa de vários países árabes normalizarem as suas relações com o estado ocupante [Israel] empurrou a formação de uma liderança unificada para a resistência popular para o todo da agenda das acções palestinianas”, justificou Husam Badran, membro da direcção política do Hamas, à emissora pan-árabe, classificando a aproximação como “um grande progresso”.

“Nesta fase, a unidade é necessária para enfrentar todos os projectos e esquemas que visem liquidar a causa palestiniana e os direitos dos palestinianos”, acrescentou, por seu turno, Iyad Nasser, porta-voz da Fatah. “Neste momento crítico, devemos transcender as disputas faccionais e defender a questão central, que é a questão palestiniana”, rematou.

Sugerir correcção