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Jovens num mundo em obras

Como dizia Hegel, “a história repete-se sempre, pelo menos duas vezes” e a verdade é que o mundo parece ter uma dívida histórica de empoderamento para com os jovens.

Poderemos nós viver em tal liquidez social que já nos tenhamos esquecido dos parvos e parvas que figuravam na canção dos Deolinda e que, em 2011, corajosamente davam a cara pelo seu abandono social e político nas ruas?

Na verdade, não vão longe os dias em que jovens acabados de entrar no ensino superior se dirigiam para as filas das secretarias das suas faculdades para congelar as suas matrículas, por falta de meios para garantir o pagamento das propinas; em que um estágio na área de estudos era quase uma miragem e, se através de alguma medida do IEFP, uma utopia; em que ter rendimentos para viver fora de casa dos pais antes dos 30 era uma proeza; ou, simplesmente, em que trabalhar no próprio país com alguma dignidade e/ou na profissão que os realizava poderia ser uma sensação próxima de ganhar na lotaria.

E, se por um lado, nestes últimos anos se sentiu uma respiração profunda de um país que havia estado em apneia desde a última crise financeira e onde, ao nível das políticas de juventude, se denotou um investimento que acompanhou as orientações do Conselho da Europa, por outro lado, é urgente verificar até que ponto esta ténue prosperidade se viu sustentada por medidas que possibilitem a transição dos jovens para a vida adulta, de uma forma estruturada e robusta o suficiente para responder aos desafios que a covid-19 vem adicionar.

Segundo dados do IEFP, e sem entrar em discussões conceptuais em torno do balizamento etário do estatuto de jovem, sabe-se que no mês de Março do corrente ano, 33 202 jovens até aos 25 anos se encontravam desempregados em Portugal Continental e, no grupo etário entre os 25 e os 34 anos, o número era de 61 394. Comparativamente, nos últimos dados disponibilizados pelo IEFP, relativos a Julho de 2020, houve um aumento dos primeiros valores para 41 752 e, no segundo caso, para os 81 921 desempregados.

Por sua vez, um estudo promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, que considera dados até 2017, mostra que somente 24% dos jovens abaixo dos 30 anos tem casa própria, que os mesmos têm dificuldade em aceder aos créditos à habitação e que o número de jovens a viver em casa dos pais está a aumentar. Para finalizar, relembrar que a investigação académica vem a alertar para a necessidade de atentar a fase de transição para a idade adulta como um intervalo decisivo nas “carreiras criminais” (e.g., Junger-Tas et al., 2011). E, que o nosso sistema de promoção e protecção das crianças e jovens em risco não se tem verificado eficiente nem na travagem, nem no impedimento de que jovens com condutas delinquentes sigam percursos criminais (e.g., Cunha et al., 2015)

Como dizia Hegel, “a história repete-se sempre, pelo menos duas vezes” e a verdade é que o mundo parece ter uma dívida histórica de empoderamento para com os jovens. Assim, é premente deixarmo-nos, de uma vez por todas, de políticas de marés e definirmos planos estratégicos concertados e longos o suficiente para adquirirem firmeza e resultados que possam ir além dos primeiros socorros. Seguimos no tique-taque para o mundo que queremos.

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