Ana Gomes não quer acreditar que Costa dê mais importância às eleições do Benfica que às presidenciais

Candidata socialista a Belém diz que, “no mínimo”, o primeiro-ministro devia reconhecer que errou ao apoiar Vieira e retirar o seu nome da lista de honra da candidatura a presidente do Benfica.

Ana Gomes
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Ana Gomes rui gaudencio

Ana Gomes disse na noite deste domingo não querer acreditar que António Costa dê “mais importância” às eleições para a liderança do Benfica que às presidenciais, lembrando que pediu reservas aos seus ministros sobre declarações para a eleição a Belém, tendo ele próprio associado agora o seu nome às eleições do clube da Luz.

À SIC Notícias, a diplomata afirmou-se “penalizada por ver o primeiro-ministro” do país “e que é também o secretário-geral do meu partido metido nesta história”. “Não só porque, como já foi apontado, viola do Código de Conduta [dos governantes] que o Governo aprovou para impedir promiscuidades, (…) mas é mais sério quando se trata do primeiro-ministro”, apontou no habitual espaço de comentário de domingo à noite, na SIC Notícias.

Para Ana Gomes “não é o clube” que está em causa, mas sim Luís Filipe Vieira. “Tem todo um percurso altamente questionável”, afirmou.

Lembrou que Vieira “foi condenado em 1993 por roubo de um camião”; está “neste momento arguido na Operação Lex, por corrupção de um juiz”; está “obviamente envolvido nas operações Mala Ciao e eToupeira, etc”​ e tem “todo um historial de dívidas à banca estranhamente perdoáveis”.

“Ao BES parece que as empresas dele deviam cerca 600 milhões de euros de que foram, entretanto, perdoados cerca de 200 milhões de forma totalmente opaca e não explicada”, acrescentou, lembrando ainda que Vieira “é um dos grandes devedores à banca”.

Ana Gomes achou “bem” que o Presidente da República tenha anunciado que vai abordar o tema com Costa e lembrou que foi o primeiro-ministro que fez sair o ex-ministro da Cultura João Soares afirmando “que mesmo em conversa de café um governante é um governante”.

“Se se aplica a um ministro, aplica-se a um primeiro-ministro. E é o mesmo primeiro-ministro que ainda recentemente veio pedir reserva aos ministros deste Governo relativamente ao seu comprometimento para com as eleições para a Presidência da República. Não quero acreditar que o primeiro-ministro ache que as eleições do Benfica são mais importantes que as eleições para Presidente da República”, afirmou.

Por isso, espera “que tudo isto tenha consequências tiradas pelo próprio primeiro-ministro. “As reacções mostraram que os portugueses não toleram mais este tipo de promiscuidades entre o futebol, os negócios do futebol e a política, sobretudo quando estão em causa decisões que nos afectam a todos”, referiu.

“No mínimo”, acrescentou Ana Gomes, Costa devia vir a público dizer que “não pensou bem no tema” e devia “retirar o seu nome” da lista de honra da candidatura de Vieira.

Apoio de Isabel Moreira a João Ferreira: sem estranheza, mas…

Questionada também sobre o facto de a deputada socialista Isabel Moreira ter dado o seu apoio à candidatura comunista de João Ferreira, Ana Gomes afirmou que “o PS é o partido da liberdade em que cada um deve pensar pela sua cabeça”.

Diz, porém, “não estranhar” devido “ao seu percurso”: “Trabalhou com Luís Amado [ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de um Governo de José Sócrates], é amiga e defende Paulo Portas, por isso não estranho que apoie o João Ferreira.”

“Só estranho que o faça evocando o Estado de direito, porque João Ferreira não é um grande defensor do Estado de direito quando, por exemplo, defende o regime de Maduro na Venezuela ou de Putin na Rússia (…) e da Bielorrússia, se calhar”, acrescentou. 

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