Costa em campanha por Ana Gomes, com Vieira ao fundo

Ao aceitar fazer parte da lista de apoiantes de Luís Filipe Vieira, Costa tem o seu momento “síndrome de Hubris”. Não é possível que, caso se tivesse aconselhado devidamente, não tivesse alguém que lhe dissesse que o acto era totalmente inaceitável para um primeiro-ministro

António Costa desencadeou a mais curiosa das suas funções políticas: ser um trunfo para a candidatura presidencial de Ana Gomes, justamente a candidata que não quer apoiar. Ao dar o seu ámen e o nome para a comissão de honra de Luís Filipe Vieira nas eleições do Benfica, António Costa acaba por convencer alguns indecisos de que a candidatura presidencial de Ana Gomes é necessária exactamente para combater este tipo de promiscuidade entre futebol, política e problemáticos casos judiciais. Um erro colossal para o outrora mestre da estratégia política.

Costa não podia estar na comissão de honra de Luís Filipe Vieira nem de nenhum outro candidato. Mas o facto de Luís Filipe Vieira ser Luís Filipe Vieira (com casos judiciais e um empréstimo misterioso do Novo Banco às costas) torna a opção de Costa ainda mais incompreensível. Se Costa defende que só o trânsito em julgado mancha o currículo de Vieira, deveria ter aplicado então a mesma política a Sócrates. Não o fez (e bem).

A promiscuidade entre o futebol e a política é um dos cancros do sistema português. Valha a verdade que se diga que Rui Rio sempre foi nessa matéria exemplar – ao contrário do seu sucessor Moreira e agora de Fernando Medina, que seguem a péssima tradição dos autarcas do país.

Mas Costa é primeiro-ministro. Tem mais responsabilidades do que um autarca. Pura e simplesmente, não podia aparecer como testemunha abonatória de Luís Filipe Vieira. É verdade que o futebol convida à irracionalidade, mas a mesma pessoa que há pouco tempo disse que os ministros se deviam abster de declarações sobre presidenciais para não perturbar Marcelo (!!!!) é o mesmo que acha que tudo é permitido relativamente às eleições do Benfica.

David Owen, um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros britânico (1977-79, Governo do trabalhista James Callaghan, actualmente membro da Câmara dos Lordes) é também médico e neurocientista. Em 2009, publicou com Jonathan Davidson um artigo numa revista médica (“Brain”) chamado “O síndroma de Hubris: uma desordem de personalidade adquirida?”. No texto, Owen e Davidson sustentam que a actividade política estimula “a incapacidade de ouvir ou ser aconselhado”, a “impetuosidade” e redunda numa “particular forma de incompetência” quando “predomina uma falta de atenção às consequências das suas acções e uma frequente desatenção aos detalhes”.

Ao aceitar fazer parte da lista de apoiantes de Luís Filipe Vieira, Costa tem o seu momento “síndrome de Hubris”. Não é possível que, caso se tivesse aconselhado devidamente, não tivesse alguém que lhe dissesse que o acto era totalmente inaceitável para um primeiro-ministro. A menos que já só esteja rodeado de yes men, é justo concluir que não perguntou a ninguém com o mínimo de noção se devia fazer o que fez. Ou então, seguindo o que dizem David Owen e Davidson, não ouviu, não se deixou aconselhar, seguiu a “impetuosidade” que lhe é característica com uma total “falta de atenção às consequências das suas acções”.

A síndrome de Hubris é tramada e costuma acabar mal.

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