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As pequenas ilhas não podem pagar (sozinhas) a remoção do plástico que lhes invade as praias

Arrastado pelas correntes do oceano, o lixo produzido e deitado fora noutras partes do mundo chega em cada vez maior quantidade, e sem autorização, aos pequenos estados insulares. Um estudo publicado na Scientific Reports recomenda que sejam disponibilizados fundos internacionais para limpar os ecossistemas ricos que beneficiam toda a Terra.

David Attenborough descreveu Aldabra como um dos “últimos tesouros naturais do mundo”. Ao estudar os ecossistemas protegidos da ilha, a descrição do conhecido naturalista britânico tornou-se clara para April Burt, bióloga da conservação que deixa um aviso: há uma “espécie” invasora e muito pouco natural a ameaçar as espécies nativas de uma das ilhas mais remotas da Seychelles, no Oceano Índico Ocidental. Num território prístino, sem população, acumularam-se 500 toneladas de lixo, maioritariamente de plástico.

Uma equipa de voluntários liderada por April Burt, doutoranda em Oxford, e constituída por estudantes da mesma universidade no Reino Unido e por jovens ambientalistas das Seychelles, país na África Oriental, limparam “o máximo de lixo possível das praias onde as tartarugas nidificam”. Em Março de 2019, carregaram 25,7 toneladas de lixo, 5% do total estimado nas quatro ilhas de Aldabra, para um navio cargueiro que as transportou até um armazém em Mahé, onde vive a maior parte da população do país africano, constituída por 98 mil pessoas.

Usaram a experiência para registar informações não só sobre o tipo de lixo encontrado em cada habitat, como é comum a muitos estudos em ilhas remotas tropicais, mas também sobre os custos envolvidos na limpeza e o tempo e esforço necessários, informações relevantes para quem quiser planear limpezas. Foi assim que chegaram à conclusão que dá título ao estudo publicado na Scientific Reports, esta quinta-feira, 10 de Setembro. Embora sejam essenciais para a manutenção e desenvolvimento saudável dos ecossistemas, pequenos estados insulares com economias maioritariamente assentes no turismo não conseguem custear a remoção do plástico marinho que as invade, sem autorização, arrastado pelas correntes.

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Aldabra é um atol protegido no sul do arquipélago das Seychelles, no Oceano Índico ocidental. É um dos "últimos tesouros naturais do mundo".

“Não sabemos de que direcção vem, mas assumimos que chegue de muitas nações diferentes”, conta a doutoranda, em entrevista ao P3, depois de encontrarem 60 mil chinelos e equipamentos de pesca de atum com códigos que rastrearam até navios da União Europeia. “Seychelles tem pesca artesanal, mas não são estas empresas de pesca a nível local que causam o problema: são as empresas industriais de pesca de atum internacionais”, expõe a bióloga que trabalhou como coordenadora científica em Aldabra antes de iniciar o doutoramento. 

A operação de limpeza na maior das quatro ilhas do atol, Grande Terre, demorou 34 dias e custou mais de 224 mil dólares (190 mil euros), cerca de 8400 euros por dia. São 7500 euros por tonelada de lixo. Os custos envolvem os 3 mil sacos, a comida e transporte dos 12 voluntários, o aluguer do navio cargueiro e a ajuda profissional da equipa da Fundação das Ilhas Seychelles.

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Estimam que ainda tenham ficado em Aldabra 513 toneladas, “a maior acumulação relatada numa única ilha”. Remover esta quantidade de lixo, à mão, custaria mais de quatro milhões de euros e exigiria 18 mil horas de trabalho. E, mesmo que este valor fosse angariado, os trabalhadores executassem a operação da forma mais eficiente e as 513 toneladas fossem transportadas para centrais de tratamento de resíduos em nações mais ricas, continuaria a desaguar na ilha, todos os dias, “uma quantidade sem precedentes do lixo plástico do mundo”.

O atol a sul do arquipélago das Seychelles é Património Mundial da UNESCO desde 1982 e casa da última população de tartarugas-gigantes do Oceano Índico (Aldabrachelys gigantea). Aproxima-se muito da ideia generalizada de paraíso na Terra: areia branca e água turquesa, vegetação abundante, recifes de corais (e tubarões) e uma das mais elevadas biomassas do Índico. Também é um paraíso para biólogos e conservacionistas estudarem os efeitos das alterações climáticas. “Por isso, é extremamente especial”, resume April Burt. “Tem sido muito difícil para a equipa que protege Aldabra ver cada vez mais lixo a chegar ao longo dos anos.”

Apesar de serem muitas vezes encarados como dois problemas separados, a poluição causada pelo plástico e as alterações climáticas “estão intrinsecamente ligadas”. Especialmente numa ilha que se ergue apenas a oito metros do nível da água. “Aldabra é rodeada por um sistema de recifes de coral, que estão a sofrer um grande impacto por causa das alterações climáticas. Para maximizar a sua resiliência, estes ecossistemas têm de estar o mais saudáveis possível”, explica a investigadora. Embora sejam desconhecidos os impactos da acumulação de plásticos nestes ecossistemas, tirando casos visíveis como estômagos de aves marinhas repletos de microplásticos ou tartarugas com palhinhas no nariz, “esta ameaça não quantificada é mais um encargo para as organizações e os governos responsáveis pela conservação de espécies e locais”.

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Parte da equipa que contribuiu para a limpeza. No navio estão 25 toneladas de plástico. Mais de 500 toneladas ainda ficaram em Aldabra. DR

“Encontrámos muitos bens de consumo, como garrafas de plástico, pastas de dentes, isqueiros”, enumera a investigadora April Burt. “Os itens mais frequentes eram chinelos de dedo; no entanto, a maior parte do lixo, de longe, era relacionado com a indústria da pesca.” Mesmo com os “esforços globais para diminuir os plásticos de uso único”, adiados com as medidas de contenção do novo coronavírus, estima-se que mais de 12,7 milhões de toneladas de plástico entrem nos oceanos todos os anos. 

De fora das contas do estudo ficaram, deliberadamente, os fragmentos com menos de um centímetro, e, por isso, também os microplásticos (fragmentos de plástico com menos de cinco milímetros de diâmetro). A impossibilidade de apanhar, com as mãos, os microplásticos, é uma das maiores críticas à eficácia das limpezas de praias. ​“Sugerimos que a melhor forma de reduzir a quantidade de microplásticos a entrar nos ecossistemas é remover o lixo antes que se comece a desintegrar. Por isso é que achamos que estas limpezas são essenciais, especialmente para os ecossistemas destas ilhas com sistemas de corais adjacentes.”

April Burt, bióloga interessada na gestão de ecossistemas insulares, lembra que “isto acontece em ilhas por todo o mundo”. “A mensagem importante a lembrar é que dependemos todos dos serviços de ecossistemas que estas ilhas fornecem [o impacto positivo de uma acção que cria benefícios ambientais para toda a sociedade]. Não faz sentido deixá-las neste estado, porque só nos vai impactar a longo prazo. Espero que isto incite alguma acção internacional.”