Opinião

Odor vaginal: um alerta para patologias potencialmente graves

A actividade sexual, tipo de alimentação, vestuário, estado hormonal e hábitos de higiene são factores reconhecidos como influenciadores da saúde ginecológica, podendo cada um destes causar distúrbios a nível genital.

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O odor vaginal pode ser sinal de complicações infecciosas potencialmente graves Timothy Meinberg/Unsplash

A maioria das mulheres terá uma infecção vaginal durante a sua vida, caracterizada por corrimento, prurido ou odor. O odor vaginal, por sua vez, é algo característico de cada mulher. No entanto, o odor de forma desagradável, mesmo que não seja esperado que o mesmo seja aprazível, é facilmente reconhecido como sinal de alerta.

É de grande preocupação das mulheres que a falta de asseio da área genital possa promover o desenvolvimento de corrimentos, odores desagradáveis e infecções. A perda de sangue, corrimento ou perda de urina são situações frequentes no quotidiano feminino. A maceração de células mortas da região genital, especialmente em mulheres obesas e que acumulam muita transpiração, contribui para o aumento do número das bactérias que colonizam a pele e para a formação de odores desagradáveis. A actividade sexual, tipo de alimentação, vestuário, estado hormonal e hábitos de higiene são factores reconhecidos como influenciadores da saúde ginecológica, podendo cada um destes causar distúrbios a nível genital.

A vagina possui uma flora endógena muito própria, envolvida em pH ácido, que tem como objectivo a defesa e a manutenção da saúde vaginal e a diminuição da mesma favorece a colonização por microrganismos patogénicos (deletérios). Os agentes de limpeza não têm a finalidade de esterilizar a região mas sim garantir a eliminação de resíduos, de secreções, não irritar nem secar, manter o pH ligeiramente ácido, ter acção refrescante e desodorizante. A limpeza excessiva pode remover a camada lipídica protectora da pele e deplecção (diminuição) da flora, promovendo secura vulvar, prurido ou odor vaginal.

Dentro do que é mais frequente, a causa mais habitual de mau odor vaginal, se excluirmos os comportamentos sexuais de risco ou a má higiene pessoal, são as vaginoses bacterianas. As vaginoses não são verdadeiras infecções vaginais, mas antes uma síndrome clínica polimicrobiana causada pela desregulação da flora vaginal em que esta é substituída por altas concentrações de bactérias. É frequentemente relatada pela paciente como “corrimento com cheiro a peixe”. Não se trata de uma verdadeira infecção como já referido, mas pode efectivamente promover infecções oportunistas ascendentes no tracto genital de agentes patogénicos, levando a endometrites pós-aborto ou pós-parto ou doença inflamatória pélvica. A vaginose pode surgir e ter remissão espontânea e, embora não seja considerada sexualmente transmissível, está associada à frequência da actividade sexual e pode tornar as mulheres particularmente vulneráveis à aquisição de infecções e consequente doenças sexualmente transmissíveis.

Deve-se chamar particular atenção a corrimentos com cheiro fétido após exames ginecológicos invasivos, ainda que minimamente invasivos, como a histerossalpingografia ou a histeroscopia, após cirurgias – curetagens ou aspirações uterinas, conizações ou cirurgia ginecológica de maior complexidade podendo ter na sua base a existência de abcessos pélvicos, hematomas infectados ou mesmo fístulas. Em qualquer um destes cenários, o odor vaginal pode ser sinal de complicações infecciosas potencialmente graves que, no limite, mesmo que inicialmente localizadas à região pélvica, podem levar a infecções sistémicas

Existe um conjunto de medidas gerais que ajudam a manter a nossa vagina saudável: o uso de roupa interior de algodão, não utilizar roupa demasiado justa ou apertada na região genital, a utilização de loções íntimas de pH adequado, evitar as lavagens excessivas uma a três vezes ao dia, dependente do clima, biótipo, actividade física e doenças associadas, ou não dormir com roupa interior.

De um modo geral, o odor vaginal, quando indicativo de algo anormal, é facilmente tratável mas pode ser um sinal de alerta muito importante para patologias potencialmente graves, pelo que devem ser orientadas pelo ginecologista assistente. Não podia deixar de sensibilizar que esta orientação deve ser feita mesmo em tempos de pandemia, como a que atravessamos agora. As mulheres não podem adiar os cuidados de saúde feminina por receio de contágio porque efectivamente as unidades de saúde seguem protocolos de segurança  desde a admissão à sala de espera, à consulta, aos exames e tratamentos.

Tenha atenção ao odor e, se necessário, procure ajuda médica.

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