Susana Cardoso Ferreira tirou a voz a Noa para ajudar pais e filhos a pensar que a morte não é o fim

O livro da autora e tradutora pode ser um desafio de leitura para os mais novos. As ilustrações de Raquel Costa estão cheias de cor para equilibrar o “preto e branco” da história, explica a escritora.

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ASHRAFUL ALAM/Unsplash

Acontece uma desgraça enorme na vida de Noa, daquelas inevitáveis e que não queremos nunca que nos aconteçam, daquelas sobre as quais temos medo de falar com os mais novos. Acontece a morte dos pais, os dois, ao mesmo tempo. “Aconteceu de repente. Como acontece tantas vezes. O mundo nem soluçou. Quase ninguém se deu conta.” É assim que Susana Cardoso Ferreira começa Noa, com ilustrações de Raquel Costa, uma edição da Oficina do Livro.

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À primeira vista, este parece um livro infantil, cheio de cor e de ilustrações bonitas e pejadas de pormenores. Foi assim que a autora o imaginou. “Não podia ser a preto e branco porque a preto e branco é o resto”, justifica. O objectivo era que Raquel Costa desse a Noa (e aos leitores) a paz que a autora não consegue dar-lhe na escrita, continua.

O “resto” é a história de Noa que, sabendo da terrível notícia, muda-se para casa do avô Lineu, que ficou com o cabelo da cor da “espuma do mar” depois de a avó ter morrido e cujos seus olhos azuis “ficaram da cor do fundo do mar” depois de os pais de Noa terem desaparecido no oceano. Quando o avô conta o sucedido, a menina perde a sua voz.

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Para todas as idades

“Escrevi sem pensar na idade. É para todas as idades”, confessa Susana Cardoso Ferreira ao PÚBLICO. “O que decidi fazer a Noa foi tirar-lhe tudo [dos pais à voz] para depois passar o resto do livro a dar-lhe”, acrescenta.

Porquê a morte? A autora, bióloga de formação e tradutora de literatura infanto-juvenil de profissão, recorda que em pequena tinha pavor da morte, “mal dormia” com medo que se adormecesse a mãe morresse. “Foi sempre uma relação difícil.” Por isso, este livro pode ser para uma criança como ela foi. Mas também pode ser para um adolescente. No seu caso, ela tinha 17 e o irmão 13 anos quando o pai morreu e pensavam, como diz a primeira frase do livro, como era possível o mundo continuar. 

Este é um livro que também pode ser para um jovem adulto, continua a autora, para alguém que comece a confrontar-se com a noção do tempo; e para alguém da sua idade, alguém que já passou os 45 anos, que não se sente na chamada meia-idade e que defende o direito “aos primeiros beijos e aos primeiros amores”. É também um livro que pode ser lido pelos mais velhos, os da idade do avô Lineu e da professora Henriqueta Pia, uma amiga do avô que vai viver com os dois para a mesma casa.

Susana Cardoso Ferreira lembra as famílias reconstruídas com pessoas de todas as idades, dos avós aos netos; a pessoas que escolhem as suas famílias, como no caso de Henriqueta Pia que recebe Paz, filha de uma ex-aluna com uma vida mais complicada. Também Paz tem os seus medos e traumas mas, ao contrário de Noa, lida com eles não se calando.

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Uma história de esperança

Depois de escrito, Susana Cardoso Ferreira deu o seu texto a ler a uma criança de 9 anos que, quando o abriu, exclamou: “Tantas letras!” Mas que se embrenhou na história e sentiu como uma vitória ter chegado ao fim, como se tivesse “conquistado" o livro. Também o deu a ler a alguém que com ela partilhou que uma sobrinha deixara de falar depois de um acidente em que um dos progenitores morreu. Por isso, a autora admite: “É uma história com tristeza, com dor, com desesperança, mas tem a nossa vida e a vida que muitos miúdos vivem.”

“Ter feito isto à Noa, matar-lhe os pais, foi dificílimo. Ela começou a sofrer e eu também”, conta Susana Cardoso Ferreira sobre o processo de escrita. “Não me apetecia usar palavras supérfluas, tal como Noa, apetecia-me ficar em silêncio.” Também não queria usar metáforas ou criar personagens sem profundidade, caricaturas. E conseguiu. Lineu, Henriqueta Pia, Paz, todos eles têm as suas histórias, as suas alegrias e tristezas, os seus medos e sonhos. 

Agora, a autora está muito curiosa em perceber como os leitores vão reagir. “Despojei-me muito neste livro. Queremos sempre que as pessoas gostem, mas sinto-o de uma maneira muito afectiva. Ao mesmo tempo que roubei a voz à Noa para que a pudesse encontrar, esta é a minha voz, é assim que eu penso e é assim que eu escrevo”, declara. “Tenho esperança de ter passado a mensagem que a vida continua e que é possível reconstruí-la, ter novas famílias. O mundo continua, é diferente, mas não é mau”, conclui.

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