Entrevista

Desistir? “Creio que a Ana nunca me pediria isso”, diz Marisa Matias

A eurodeputada e candidata do Bloco de Esquerda avisa que não será ela a dar um empurrão à socialista Ana Gomes e afasta um cenário de desistência que dê força a uma só candidatura de esquerda.

A sua estreia na corrida a Belém, há cinco anos, arrancou o melhor resultado de sempre para o BE. Agora, Marisa Matias volta a jogo, numas eleições que serão “mais difíceis” e com um debate “mais exigente”. Apesar de considerar que o actual Presidente da República teve “um mandato exemplar” e “incomparável”, a eurodeputada bloquista aponta posições diferentes em pelo menos três eixos essenciais. Em entrevista ao programa Hora da Verdade, do PÚBLICO e da Rádio Renascença (que é emitido esta quinta-feira às 13h), Marisa Matias afirma-se como “a voz da esquerda” e, ainda que tenha “muito orgulho” na sua amizade com Ana Gomes, afasta qualquer hipótese de desistência da sua candidatura.

Recentemente, o eurodeputado José Gusmão disse que “é tempo de derrotar Marcelo”, acrescentando que foi a Marisa Matias que melhor enfrentou “o Presidente da direita”. É uma candidatura para marcar o espaço do BE ou para derrotar Marcelo?
Tal como há cinco anos, apresento-me num contexto de crise. Estamos novamente a viver uma situação difícil e quero trazer soluções concretas para o debate, com propostas de alterações estruturais, para que não andemos sempre de crise em crise, sem ter uma sociedade protegida, sem condições ao nível de serviços públicos essenciais ou sem a devida protecção de quem trabalha. Acho que o papel de qualquer Presidente da República é contribuir para soluções. Não sei ainda se Marcelo Rebelo de Sousa será candidato, ninguém sabe, mas todos achamos que sim. E nesse contexto importa olhar para o que tem sido esta crise e perceber qual tem sido o papel do Presidente.

No nosso sistema eleitoral, o Presidente tem um papel um pouco reduzido em termos práticos. Que soluções pode um presidente propor num contexto destes?
Não concordo que seja um papel muito delimitado. É limitado pelos poderes que estão definidos. Não é o Governo do país. Mas é um papel que temos visto cada vez mais como importante e determinante. Um papel que pode ou não ajudar a resolver e encontrar soluções para as crises. 

Acha que Marcelo tem ajudado?
Teremos visões diferentes. Quero deixar bem claro que acho que o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa foi incomparável. Houve vários momentos em que nos encontrámos, nomeadamente na tentativa de dar visibilidade e voz aos cuidadores informais e na questão dos sem-abrigo. Não esqueço também o papel de Marcelo Rebelo de Sousa no cumprimento da vontade democrática do povo português a seguir às eleições, quando uma crise política se arrastou. Mas qualquer crise tem vários eixos de intervenção e há três que são essenciais.

O primeiro são os recursos de que necessitamos para responder à crise e a forma como olhamos para o sector financeiro. Desse ponto de vista, não esqueço que o Presidente esteve ao lado da solução que foi encontrada para o Novo Banco e que penalizou e muito o país. Foi uma solução articulada entre a Comissão Europeia, o Governo português e o Presidente da República. E foi uma prova clara da dimensão que pode ter um presidente na intervenção.

O segundo eixo passa pela protecção dos serviços públicos essenciais e a pandemia mostrou-nos que um dos mais essenciais é o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Aqui, também divirjo da tomada de posição do Presidente aquando da discussão da nova Lei de Bases de Saúde, quando fez pressão para manter as parcerias público-privadas dentro do SNS. Com a crise pandémica vimos que os privados fugiram e abandonaram quem mais precisava. Foi o SNS que deu resposta a quem necessitava.

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A eurodeputada ficou em 3.º lugar nas últimas eleições presidenciais Daniel Rocha

O terceiro eixo tem que ver com a protecção de quem trabalha. Continuamos a ter, na sequência da intervenção da troika sobretudo, uma desigualdade laboral enorme que penaliza quem trabalha. E o Presidente não esteve ao lado de lutas importantes. Recordo a luta da Cristina Tavares ― assediada de forma inaceitável pela entidade na qual trabalhava ― e o caso das trabalhadoras da Triumph. Não me esqueço do momento em que tiveram de correr atrás do Presidente para lhe poder dar uma palavra. Num mandato marcado por tanta presença, algumas das ausências tornam-se bastantes visíveis. Além disso, temos também posições diferentes sobre direitos e liberdades.

Como por exemplo?
O respeito por todas as famílias, independentemente da forma como são compostas, o respeito pela dignidade na hora de morrer e o respeito pelos direitos das mulheres, mesmo em lutas que já travámos neste país, como é o caso da interrupção voluntária da gravidez. Há várias áreas em que temos uma visão diferente. Dito isto, infelizmente estamos muito habituados a que em momentos de crise haja quem atire para o debate público um conjunto de inevitabilidades ou distracções para nos desviar a atenção do que é essencial debater. Creio que ao fazer esta confrontação do espaço democrático, baseada em princípios comuns, estamos a contribuir para poder fazer o discurso daquilo que realmente importa. Tendo Marcelo Rebelo de Sousa desempenhado o mandato de forma exemplar, há outras formas de olhar para a crise. É papel do ou da Presidente poder ajudar a encontrar soluções.

Há cinco anos teve o melhor resultado de um candidato do BE nas presidenciais. A regra é as segundas candidaturas terem piores resultados. A excepção foi Cavaco Silva, que à segunda foi eleito. Porque é que aceitou este desafio?
Acho que estamos a viver um momento crucial na realidade portuguesa. Reflecti e ponderei muito antes de avançar. Não é de ânimo leve. Mas temos de estar disponíveis para fazer o debate que importa. Estamos num contexto político diferente e serão umas eleições difíceis, não tenho nenhuma dúvida. Mas são as eleições que mais precisam de um debate sério. A crise não acabou com a política. O debate político torna-se ainda mais exigente e as pessoas merecem que seja feito em torno dos problemas e das soluções concretas e não em torno de distracções, mentiras ou inevitabilidades.

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A socióloga de 44 anos candidata-se a Belém pela segunda vez Daniel Rocha

Em 2016 ficou em terceiro lugar, com 10,12% dos votos. Há uma pressão maior de, no mínimo, manter este resultado?
Tenho a intenção de dar a voz às pessoas de esquerda. Dar a voz às pessoas é uma batalha que nunca estará perdida, independentemente do resultado. Obviamente que procurarei que o resultado seja o melhor possível.

E esse “melhor possível” é também um resultado melhor do que o de André Ventura?
Não me fale nesse senhor, por favor. Ouço muitas vezes dizer que quer representar o português comum. Na realidade não vejo outra coisa a não ser que está ao lado dos interesses financeiros. Enquanto deputada ao Parlamento Europeu pude trabalhar nas várias comissões de inquérito em relação aos offshores e nelas encontrei a empresa com a qual André Ventura trabalhou até há bem pouco tempo. É um senhor vigarista e cobarde, que não está ao lado do português comum, mas ao lado dos interesses financeiros que todos os dias assaltam quem diz representar.

Mas olhando para o crescimento da direita nas intenções de voto, julga ser uma boa estratégia que existam pelo menos três candidaturas à esquerda: a sua, a de Ana Gomes e a do PCP?
Acho que é um sinal de democracia que haja muitos candidatos e candidatas e ainda bem que assim é. Estamos a falar de uma eleição, não de uma nomeação. É preciso uma afirmação das diferentes propostas e as pessoas terão condições para decidir. E é surpreendente que o PS não apresente candidato ou candidata a estas eleições.

Tem sido a estratégia do PS, deixar que os candidatos apareçam e não tomar uma posição. Acha normal num partido com a dimensão do PS?
Não vou comentar as decisões internas, mas acho que é um momento em que precisamos de afirmar a esquerda. Temos muitos problemas importantes para debater. Não estou a excluir dessa lista a necessidade de derrotar a extrema-direita, porque essa é uma necessidade real e urgente do ponto de vista da salvaguarda democrática do nosso país. Haver várias alternativas que possam consolidar o espaço na esquerda é uma boa e não uma má notícia.

A Marisa e a Ana Gomes têm vários pontos em que se tocam – o percurso como eurodeputadas, o combate contra a corrupção, o branqueamento de capitais. O que é que as distingue?
É uma amizade da qual me orgulho bastante. Gosto muito da Ana Gomes e desejo-lhe a maior sorte. Teremos muitas coisas em comum, mas também coisas nas quais podemos fazer um debate. Se olharmos para a política europeia, percebemos que há pano para mangas para podermos fazer um debate sério e honesto que mostre essas diferenças. Há medidas estruturais suficientes para podermos debater sem nenhum drama.

Depois de debater, são duas candidaturas que possam confluir numa desistência em favor uma da outra? 
Creio que a Ana nunca me pediria isso e eu não lhe vou pedir isso seguramente. Acho que há espaço. 

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